3I/ATLAS – Observamos o Visitante Interestelar

O cometa C/2025 N1 (ATLAS), ou I3/ATLAS, aparece circulado em meio a incontáveis estrelas.

O Minor Planet Center (MPC), da União Astronômica Internacional (IAU), emitiu em circular a confirmação do objeto A11pl3Z como um visitante interestelar, conferindo a nomenclatura definitiva 3I/ATLAS. O objeto, no entanto, exibe características cometárias, o que lhe confere um segunda designação: C/2025 N1 (ATLAS), seguindo a regra para nomenclatura de cometas.

O diagrama abaixo mostra a trajetória e a posição atual do 3I/ATLAS, baseadas nos dados disponíveis até 2 de julho. O objeto se aproxima rapidamente, a uma velocidade de mais de 60 km/s e atingirá sua menor distância ao Sol em 29 de outubro, numa posição entre as órbitas de Marte e da Terra.

O cometa interestelar C/2025 N1 (ATLAS), ou 3I/ATLAS, recebeu suas designações definitivas do Minor Planet Center da União Astronômica Internacional.

Nossa Caçada ao 3I/ATLAS

Desnecessário dizer que o entusiasmo entre toda a comunidade de observadores é grande neste momento. E não ficamos de fora dessa euforia. A meteorologia estava desfavorável na noite de 2 de julho em São José dos Campos, mas sempre há a alternativa do uso de telescópios robóticos em sítios mais favorecidos.

Através da plataforma iTelescope, acessamos um telescópio instalado no Chile para programar uma sequência de tomada de imagens da região onde as efemérides previam a passagem do 3I/ATLAS.

A uma distância de aproximadamente 5 unidades astronômicas (1 unidade astronômica equivale à distância média entre a Terra e o Sol, ou aproximadamente 150 milhões de km) e medindo algo em torno de 20 km, a tarefa é desafiadora. Além disso, estaríamos observando uma área do céu repleta de estrelas, na direção da região mais central da Via Láctea, em busca de um objeto de brilho muito tênue ( magnitude 18). É algo um pouco mais complicado que encontrar uma agulha num palheiro (se quer mesmo achar uma agulha num palheiro, fica a dica: use um ímã).

A Detecção

E lá fomos nós, operando remotamente o telescópio T75, com 250 mm de abertura instalado em Rio Hurtado, no Chile, em busca do terceiro objeto conhecido com origem fora do nosso Sistema Solar.

Programamos 5 exposições sucessivas de 180 segundos e o resultado foi um conjunto de imagens com este aspecto:

Um par de imagens capturadas através do telescópio T75, instalado no Chile, da área em torno da posição do objeto interestelar 3I/ATLAS. Créditos: Wandeclayt M./@ceuprofundo.

No meio desse palheiro, e sem um ímã, a melhor maneira de encontrar nossa agulha é criar uma animação entre os frames, na esperança de detectar um ponto se deslocando no campo.

Com um deslocamento no céu de aproximadamente 1,3″ por minuto, seria possível, no intervalo entre as exposições, detectar o cometa como um ponto móvel.

E lá estava ele! O tímido 3I/ATLAS passeando em frente as estrelas da região central da Via Láctea.

O objeto 3I/ATLAS, ou C/2025 N1 (ATLAS), aparece como um minúsculo ponto se deslocando entre duas imagens que se alternam. As imagens são escuras, repletas de pontos brilhantes, que são estrelas na direção do centro da Via Láctea.
Detecção do objeto interplanetário 3I/ATLAS em imagens capturadas com telescópio robótico remoto. Créditos: Wandeclayt M./@ceuprofundo.

Como Observar?

Com magnitude em torno de 18, esse é um alvo proibitivo para a observação visual em telescópios mais modestos, mas é possível capturá-lo com câmeras CCD.

Se você também quer se aventurar imageando este célebre visitante, o primeiro passo é encontrar sua posição no céu.

As coordenadas do objeto podem ser acessadas através do sistema JPL Horizons. Além das coordenadas celestes (Ascenção Reta e Declinação) o sistema informa parâmetros como distância, taxa de deslocamento (em segundos de arco por minuto) e magnitude estimada. Durante a primeira metade do mês de julho, transitando pelas constelações de Sagitário e Ofiúco, há uma dificuldade a mais, proporcionada pelo excesso de estrelas de nossa galáxia visível nessa região do céu. A maioria, mais brilhantes que o próprio cometa.

Mas não se intimide! Saia à caça desse visitante antes que ele acelere em seu passeio pelo Sistema Solar e nos deixe para nunca mais voltar!

A11pl3Z: Mais um Visitante Interestelar?

Pela terceira vez na história, um objeto passando pelo Sistema Solar pode ter origem em outro sistema planetário. O objeto batizado provisoriamente como A11pl3Z é o mais recente candidato ao carimbo de rocha interestelar no passaporte.

Antes de tudo: não há qualquer risco de colisão desse objeto com a Terra! Os dados preliminares mostram sua trajetória cruzando a órbita de Marte, mas também sem se aproximar do Planeta Vermelho.

Visualização da óribta do objeto A11pl3Z com dados preliminares, gerada na ferramenta Orbit Viewer do programa Catalina Sky Survey.

A Descoberta

O objeto foi descoberto em observações realizadas por um telescópio da rede ATLAS (Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System) a partir do Chile, com magnitude aparente 18 e localizado a 4 unidades astronômicas da Terra (1 unidade astronômica é uma medida de distância equivalente à distância média da Terra ao Sol, ou aproximadamente 150 milhões de km).

Os telescópios da rede ATLAS enxergam uma grande área do céu, um campo total de 7,5°, ou o equivalente a 15 vezes o diâmetro da Lua Cheia. Isso permite uma grande cobertura do céu em sucessivas varreduras em busca de asteroides.

Em seguida aos alertas de novas detecções, outros telescópios confirmam a presença dos objetos e produzem novos dados de posição, alimentando os programas para determinação de órbitas.

A rede Deep Random Survey foi uma das que colaborou com a produção de dados de posição do A11pl3Z.

Imagem do objeto interestelar A11pl3Z capturada por telescópio da rede Deep Random Survey. Créditos: K Ly/Deep Random Survey.


Novas observações são necessárias e a astronomia amadora pode contribuir com dados de posição e brilho, ajudando a conhecer com mais precisão a órbita do A11pl3Z. Efemérides para observação do objeto podem ser geradas pelo Center for Near Earth Objects Studies (CNEOS) do Jet Propulsion Laboratory (JPL).

Dados recuperados de observações de arquivo permitiram localizar o A11pl3Z em imagens capturadas anteriormente, ajudando a refinar os parâmetros orbitais iniciais. Com os dados disponíveis na manhã de 2 de julho, é possível determinar que a máxima aproximação do objeto ao Sol ocorrerá em outubro, passando a uma distância 36% maior que a distância média da Terra ao Sol. Infelizmente, a Terra e o A11pl3Z estarão em posições diametralmente opostas, dificultando a observação do objeto durante o periélio.

Visitas Anteriores

Anteriormente, os objetos 1I/Oumuamua e 2I/Borisov também tiveram suas trajetórias traçadas com origem no espaço interestelar. Este é também um campo onde o Observatório Vera Rubin poderá contribuir aumentando o censo de objetos detectados. Sua câmera de 3200 Megapixels, durante uma primeira rodada de demonstração, descobriu impressionantes 2104 asteróides, mostrando seu potencial como um rastreador de objetos do Sistema Solar. Na imagem abaixo, um pequeno recorte de uma das primeiras imagens publicadas pelo Observatório Rubin, cada traço colorido é um asteróide detectado.

Asteróides detectados pelo Observatório Vera Rubin em campo na direção da constelação de Virgem. NSF-DOE Vera C. Rubin Observatory.

Elementos Orbitais Provisórios

Elementos Orbitais (provisórios):  A11pl3Z

Perihelion 2025 Oct 29.66294 +/- 0.219 TT = 15:54:38 (JD 2460978.16294)
Epoch 2025 Jul  2.0 TT = JDT 2460858.5   Earth MOID: 0.3557   Ju: 0.2478
q   1.34709127 +/- 0.0135           Ma: 0.0199   Sa: 0.4081      AutoNEOCP
H   11.92 G 0.15                    Peri.  128.10518 +/- 0.14
z  -3.7599875674 +/- 0.0381         Node   322.07493 +/- 0.10
e   6.0650464 +/- 0.102             Incl.  175.10957 +/- 0.0045

106 of 108 observations 2025 June 14-July 2; mean residual 0".38

Sem Descanso: O Sol Trabalhou Pesado no Final de Semana

Enquanto aqui na Terra lutamos contra a esmagadora escala 6×1, a 150 milhões de quilômetros daqui, o Sol não descansou no fim de semana. Uma região ativa que se dirige ao limbo oeste do Sol emitiu um inesperado flare categoria X no fim da noite deste sábado (24/5).

E a mesma região deu um replay do espetáculo (mas com um pouco menos de intensidade, atingindo a categoria M, um pouco abaixo do limite da categoria X) na tarde deste domingo (25/5), por volta das 13:30h (horário de Brasília).

As imagens abaixo são uma composição de quadros capturados em duas faixas do ultravioleta pelo satélite de observação solar SDO (Solar Dynamics Observatory).

Imagem do Sol capturada pelo Observatório de Dinâmica Solar mostrando detalhes em vermelho e laranja intensos. No canto superior esquerdo da imagem, observa-se a emissão de um flare categoria X. A imagem foi registrada em 24 de maio de 2025, utilizando os comprimentos de onda AIA 304 e AIA 193. No canto inferior direito, está o logotipo e o endereço do site helioviewer.org.
Flare classe X1.1 emitido pela região ativa AR4098 às 22:52 do sábado (24/5) no horário de Brasília. Imagens: NASA/SDO/AIA via Helioviewer.
Imagem do Sol capturada pelo Observatório de Dinâmica Solar mostrando detalhes em vermelho e laranja intensos. No canto superior esquerdo da imagem, observa-se a emissão de um flare categoria M. A imagem foi registrada em 25 de maio de 2025, utilizando os comprimentos de onda AIA 304 e AIA 193. No canto inferior direito, está o logotipo e o endereço do site helioviewer.org.
Flare classe M8.9 emitido pela região ativa AR4098 às 13:32 do domingo (25/5) no horário de Brasília. Imagens: NASA/SDO/AIA via Helioviewer.

Regiões ativas são regiões de concentração do campo magnético solar. Regiões com campos mais intensos podem fornecer energia para eventos como flares e ejeções de massa coronal (CME). Estudar e monitorar essas regiões é fundamental para a previsão de seus efeitos na interação com o campo magnético terrestre.

Esses efeitos incluem apagões de rádio em frequências usadas para comunicação ou mesmo a indução de correntes que podem sobrecarregar sistemas de transmissão de energia elétrica na Terra. Satélites com trajetórias passando por áreas afetadas pelas emissões solares também podem ser impactados e em certos casos é preciso desligá-los para evitar danos aos circuitos.

A perturbação da ionosfera pela atividade solar causa também um aumento do arrasto em satélites em órbita baixa, além de impactar na precisão de sistemas globais de navegação por satélite, como GPS (EUA), GLONASS (Rússia), Galileu (Europa) e BeiDou (China).

Classificando Flares

Os flares recebem uma classificação de acordo com a intensidade do pico do fluxo de raios X medidos por satélites na Terra na faixa entre 0,1 e 0,8 nm.

  • B  –   Intensidade menor que 1 µW/m2                                         
  • C  –   Intensidade entre 1 e 10 µW/m2      
  • M –  Intensidade entre 10 e 100 µW/m2                                     
  • X  –  Intensidade maior que  100 µW/m2   

Cada classe é 10 vezes mais intensa que a anterior, e entre elas usamos um multiplicador para estabelecer uma graduação. Um flare M8.9, como o capturado na imagem acima corresponde a um pico de 8,9 x 10 µW/m2 = 89 µW/m2 . Ou seja, muito próximo do limite de 100 µW/m2 da classe X.

A classe X é ilimitada, e pode receber multiplicadores maiores que 10 para indicar flares mais intensos que 1 mW/m2.

Gráfico de linhas que representa a intensidade da flare ao longo do tempo. Esse gráfico se refere às duas imagens acima. Observa-se a presença de quatro picos, sendo a primeira e a última correspondentes às flares das imagens acima, em ordem.
Emissão de raios X detectados por satélites da NOAA. Os flares das imagens acima correspondem ao primeiro e ao último pico no gráfico. Créditos: NOAA/SWPC.

A região ativa responsável pelos eventos é identificada como AR14098, na numeração oficial atribuída pelo SWPC (Centro de Previsão do Clima Espacial) da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) e pode ser vista na imagem abaixo, na área com manchas escuras à direita e a meia altura. A imagem é uma captura do instrumento HMI do SDO.

Imagem do Sol em luz visível (HMI Continuum) capturada pelo Observatório de Dinâmica Solar. A imagem, em tons de cinza, mostra várias manchas solares na superfície identificadas com marcadores vermelhos com a sigla "AR" que significa "Região Ativa", seguidos pelos seus respectivos números de identificação. As regiões ativas parecem como áreas escuras, há várias delas espalhadas mais na zona equatorial do Sol. No canto inferior direito, aparece o logotipo do site helioviewer.org.

A imagem abaixo é nossa captura usando um telescópio solar Coronado SolarMax II, na faixa do hidrogênio alfa, uma estreita faixa do espectro emitido pelo gás hidrogênio excitado na cromosfera solar. Além de filamentos e proeminências espalhados pelo Sol, podemos ver a animada região 4098 nas proximidades do limbo oeste do Sol.

Imagem do Sol registrada em 25 de maio de 2025, com um telescópio Coronado SolarMax II de 60 mm e utilizando um filtro H-alfa. A imagem, em tons de vermelho, releva a cromosfera solar. Na imagem, há destaque para região ativa RA 4098, identificada e circundada no canto inferior direito do Sol. São visíveis filamentos escuros e protuberâncias nas bordas. No topo direito, estão as informações do equipamento e autoria da imagem, creditada a Wandeclayt M. (@ceuprofundo).

Saturno: O Senhor dos Anéis e dos Satélites

Com 128 novos satélites anunciados, Saturno atinge a extraordinária marca de 274 satélites com órbitas confirmadas.

O satélite Titan aparece em primeiro plano, à frente do disco do planeta Saturno. Os anéis estaão alinhados com a linha de visidada e aparecem apenas como uma linha delgada. A sombra dos anéis é vista sobre Saturno.
O satélite Titan, com seus oceanos de metano líquido, é fotografado em frente a Saturno e seus anéis pelo sistema de imageamento científico da sonda Cassini, em maio de 2012. Dados: ISS/NASA, Processamento: Wandeclayt M./@ceuprofundo

Satélites na Contramão

Mas os novos satélites estão longe da exuberância de suas grandes luas descobertas até o Séc. XIX, como Titan e Enceladus. Os novos corpos são pequenos, distantes e irregulares, muitos deles em órbitas retrógradas (ou seja, na contramão da rotação de Saturno e das órbitas da maioria dos seus satélites) .

As pequenas dimensões das luas também as previne de assumir a forma esférica, comum a objetos maiores do Sistema Solar. São luas irregulares, com aspecto não muito diferente de uma batata.

Aumentando a Família

Pan, um pequeno satélite irregular, em forma de ravióli, orbita Saturno dentro da Divisão de Encke, uma

O anúncio oficial de pequenos corpos do Sistema Solar é feito através das circulares eletrônicas do Minor Planet Center da União Astronômica Internacional (IAU), órgão responsável pela nomenclatura de objetos do Sistema Solar e de estruturas em suas superfícies.

Nesta terça (11/3), três circulares trouxeram os elementos orbitais dos novos satélites:

MPEC 2025-E153 : SIXTY-ONE NEW SATURNIAN SATELLITES
MPEC 2025-E154 : THIRTY-FOUR NEW SATURNIAN SATELLITES
MPEC 2025-E155 : THIRTY-THREE NEW SATURNIAN SATELLITES

Mas para observar os novos membros da família de Saturno, você vai precisar de um instrumento pouco modesto. As luas recém-confirmadas são objetos pequenos, muitos deles provavelmente são fragmentos de uma colisão que não excedem 5 km de diâmetro. As observações que permitiram determinar as órbitas satélites foram realizadas com o telescópio CFHT (Canada France Hawaii Telescope) de 3,5 m de diâmetro, no monte Mauna Kea, no Havaí, complementando observações prévias do telescópio japonês Subaru, também instalado na montanha havaiana.

A descoberta e a determinação orbital de 64 satélites irregulares em observações realizadas no CFHT entre 2019 e 2021, é apresentada no artigo Retrograde predominance of small saturnian moons reiterates a recent retrograde collisional disruption de Edward Ashton e outros, disponível no ArXiv.

Titan (em primeiro plano) e Rhea (no centro) em imagem da sonda Cassini de 16 de junho de 2011. Dados: Imaging Science Subsystem/NASA. Processamento: Wandeclayt M./@ceuprofundo.

Infelizmente, durante o mês de março, Saturno fica fora do alcance dos telescópios ao passar pela conjunção com o Sol em 12/3, surgindo no início de abril no horizonte leste ao amanhecer.

2024 YR4: A Ameaça Vem do Céu!

Objetos como o asteroide recém descoberto 2024 YR4, com órbita que se aproxima ou intercepta a órbita da Terra, são de especial interesse para a astronomia pela possibilidade de um eventual impacto futuro com nosso planeta.

Usualmente, os dados observacionais preliminares proporcionam uma precisão muito limitada para a determinação das órbitas desses objetos e apenas após um período mais longo de observação é possível refinar esses cálculos, determinando uma trajetória precisa. De qualquer forma, por cautela, probabilidades iniciais de impacto acima de 1% merecem atenção. Afinal, nosso planeta já viveu um episódio traumático com um asteroide.

Extinção em Massa

Segundo o registro fóssil, a vida na Terra enfrentou cinco eventos de extinção em massa nos últimos 500 milhões de anos. O mais recente deles, responsável pela extinção dos dinossauros no final do período Cretáceo, há cerca de 65 milhões de anos, coincide com o impacto de um asteroide com tamanho estimado de 10 km na região da Península de Yucatán, no sul do Golfo do México.
Sobre a porção de terra da Península, estruturas semi circulares delimitam uma cratera de aproximadamente 160 km que tem a maior parte de sua área, incluindo o pico central do impacto, nas águas do Golfo.

O consenso atual da comunidade científica é de que esse impacto tenha sido a principal causa da última das grandes extinções. Isso justifica o constante monitoramento dos céus em busca de objetos cujas órbitas interceptem a da Terra e que possam apresentar riscos de colisão. Afinal, outros impactos menores também deixaram suas marcas na superfície de nosso planeta, inclusive em território brasileiro.

Crateras de Impacto no Brasil

Ao contrário das crateras de impacto na Lua, em Marte e em outros corpos do Sistema Solar onde não ocorrem processos erosivos pela chuva e pelo vento, as crateras na Terra são fortemente desbastadas ao longo do tempo e poucas conservam suas características ou dimensões originais. Ainda assim, vestígios de grandes impactos, mesmo sob a ação da erosão, sobreviveram à passagem das eras e podem ser encontrados hoje.

Em Tocantins, na Serra da Cangalha estão as estruturas de impacto mais bem preservadas em solo brasileiro. Uma formação com aproximadamente 14 km de diâmetro, com anéis concêntricos, formada a menos de 250 milhões de anos, pode ser vista com facilidade em imagens de satélite.

Serra da Cangalha. Cratera de Impacto com 13 km de diâmetro em Tocantins. Dados: Landsat 8/USGS/NASA. Processamento: Wandeclayt M.

Outras grandes estruturas de impacto no Brasil são o Domo de Araguainha, em Mato Grosso, e a Cratera de Colônia, em São Paulo.

Não esperamos que um objeto tão grande quanto o de Yucatán, com potencial para uma nova extinção em massa, esteja em rota de colisão com a Terra. Mas objetos menores, capazes de produzir eventos que causem danos localmente, sobretudo se atingirem zonas densamente habitadas, são abundantes no Sistema Solar atual.

Dimorphos na Caçapa do Meio!


Os programas de monitoramento dos Objetos Próximos da Terra, ou NEOs – na sigla em inglês para Near Earth Objects – buscam e monitoram esses objetos, permitindo determinar seus parâmetros orbitais e propriedades físicas. Esses dados podem garantir que danos sejam mitigados ou mesmo que missões capazes de defletir a órbita de objetos potencialmente perigosos possam ser projetadas e lançadas a tempo de prevenir desastres.

Uma tecnologia de redirecionamento orbital foi testada recentemente com a missão DART (Double Asteroid Redirection Test), lançada pela NASA em novembro de 2021.

A missão DART tinha como objetivo testar e validar o método de redirecionamento orbital através de impacto. Em 26 de setembro de 2022, a DART alcançou o asteroide (65803) Didymos e atingiu com sucesso sua pequena lua Dimorphos.

Imagem do asteroide Didymos e de sua lua Dimorphos capturada pela câmera de navegação da missão DART, dois minutos e meio antes do impacto. A imagem foi capturada a uma distância de 920 km. Créditos: NASA/Johns Hopkins APL.

Colidindo frontalmente com Dimorphos, esperava-se que a DART fosse capaz de “transferir momento” (essa é a forma técnica de dizer que a nave iria alterar a velocidade do pequeno satélite ) para o pequeno corpo, modificando a geometria de sua órbita. É similar ao que acontece com bolas de sinuca, quando uma bola em movimento colide com uma bola parada. A primeira bola pode parar completamente enquanto a segunda bola passa a se mover com a mesma velocidade da primeira.

Geometria do sistema Didymos-Dimorphos, do ponto de vista do Telescópio Espacial Hubble, no instante do impacto. A linha vermelha indica a trajetória da espaçonave DART. A linha laranja indica a direção do Sol. A linha azul é uma projeção do polo norte de Didymos, que também coincide com o polo orbital do sistema. Créditos: Jian Yang Li et al. disponível em: https://doi.org/10.1038/s41586-023-05811-4
As últimas seis imagens enviadas pela câmera DRACO, a bordo da DART, antes do impacto. A imagem no topo à esquerda cobre uma extens˜åo aproximada de 100 m, exibindo Dimorphos quase em sua totalidade. Última imagem completa, ao centro na linha inferior, tem uma resolução de 5.5 cm/pixel cobrindo uma extensão de 28 m na superfície de Dimporphos. Créditos: D. Bekker, C. Ernst, T. Daly, DRACO/APL/NASA.

Observações subsequentes confirmaram que a missão foi um sucesso, reduzindo em 33 minutos o período orbital de Dimorphos em torno de Didymos, passando de aproximadamente 11h55min para 11h22min.

Esse valor supera com larga margem a expectativa inicial de uma redução de 7 minutos no período orbital do sistema.

Objetos Próximos da Terra

É ótimo saber que já temos um método de redirecionamento testado e validado, porque o número total de asteroides próximos catalogados passa de 37 mil, com mais de 11 mil deles com diâmetro superior a 140 m e quase 900 excedendo 1 km.

Desses objetos, cerca de 2500 são potencialmente perigosos.

E se esses números parecem grandes, vale lembrar que nossa capacidade de detecção vem sendo constantemente ampliada e que a entrada em operação de telescópios com campos de visão amplos, dedicados a levantamentos (surveys) que varrerão grandes áreas do céu em noites sucessivas, proporcionarão um salto em nossa capacidade de detecção, com um consequente salto no número de objetos catalogados.

O gráfico abaixo mostra o total acumulado de asteroides próximos da Terra, descobertos até 12 de fevereiro de 2025.

Número acumulado de asteroides próximos da Terra, descobertos até 12 de fevereiro de 2025. Em azul, o total de asteroides. Em laranja, os asteroides com mais de 140 m de diâmetro. Em vermelho, os asteroides com mais de 1 km. Gráfico disponível em https://cneos.jpl.nasa.gov/stats. Acesso em 14 de fevereiro de 2025. Créditos: Alan Chamberlin (JPL/CALTECH).

De olho no 2024 YR4

Classificado até a data de publicação deste post na categoria 3 da escala de Torino, o asteroide 2024 YR4 ocupa o topo da lista de risco de Asteroides Potencialmente Perigosos (PHAs, na sigla em inglês para Potentially Hazardous Asteroids) e você provavelmente vai ver manchetes alarmistas nos sites de notícias e postagens sensacionalistas nas redes sociais. Mas esta classificação não significa que haja um impacto confirmado e de grandes proporções nos esperando.

Diagrama das órbitas dos planetas Mercúrio, Vênus, Terra, Marte e Júpiter. Estas órbitas são aproximadamente circulares. A órbita do asteroide 2024 YR4 está plotada no diagrama como uma elipse que interceptas as órbitas de Marte e da Terra e está totalemnte contida dentro da órbita de Júpiter.
Posição e órbita projetado do 2024 YR4 em 15 de fevereiro de 2025. Simulação realizada com o Orbit Viewer da plataforma JPL/Horizons. https://ssd.jpl.nasa.gov/tools/sbdb_lookup.html#/?sstr=2024%20YR4&view=VOP

A escala de Torino combina a probabilidade de impacto (na data desta publicação, calculada em aproximadamente 2%) com a extensão da potencial destruição causada pela colisão. No caso do 2024 YR4, um asteroide com diâmetro estimado em entre 40 e 90 m, a destruição seria restrita às vizinhanças da área do impacto.

Tabela com resumo do risco de impacto do asteroide 2024 YR4 computado com observações no período de 25 de dezembro de 2024 a 8 de fevereiro de 2025. Créditos: CNEOS.

Estes números podem, no entanto, variar bastante com a inclusão de novos dados observacionais coletados com telescópios terrestres até meados do primeiro semestre de 2025 e, após isso, pelo acompanhamento feito por telescópios espaciais infravermelhos.

Após essa janela de observação, o 2024 YR4 voltará a ser observável em 2028 em sua próxma passagem (sem risco de colisão) pelas proximidades da Terra.

O 2024 YR4 foi descoberto em 27 de dezembro de 2024, no Chile, por um dos quatro telescópios da rede ATLAS (Asteroid Terrestrial-impact Last Alert System). Composta por outros três telescópios (2 no Havaí e 1 na África do Sul), a rede ATLAS varre o céu várias vezes por noite em busca de objetos que se movam. Para ter uma ideia da eficiência desse sistema, até a data desta publicação, os telescópios da rede ATLAS já haviam descoberto 98 cometas, 4489 supernovas, 1160 asteroides próximos da Terra (NEAs) e 107 asteroides potencialmente perigosos (PHAs).

Imagens da descoberta do asteroide 2024 YR4 por telescópio do projeto ATLAS no Chile. Créditos: ATLAS.

A notificação emitida pela IAWN (International Asteroid Warning Network) estabelece 22 de dezembro de 2032 como a data para um eventual impacto. Notificações são emitidas para probabilidades de impacto acima de 1%, mas é comum que novas observações levem a uma queda nessa probabilidade.

Não Entre em Pânico!

Embora haja um risco baixo, mas real, de uma colisão no futuro próximo, o acompanhamento deste objeto pelos próximos anos permitirá traçar com menos incerteza sua órbita, definindo se o impacto de fato ocorrerá e quais estratégias de defesa podem ser adotadas. Até lá, cabe aos cientistas, autoridades e à população, garantir o apoio e o investimento contínuo na ciência, sabendo que além dos perigos que encontramos na superfície há ameaças que vem do céu.

Escala de Torino

Nível Zona/Cor Descrição
0 Sem Risco (Branco) A probabilidade de colisão é zero ou tão baixa que é efetivamente zero. Aplica-se também a pequenos objetos como meteoros que se desintegram na atmosfera.
1 Normal (Verde) Descoberta rotineira de objeto que com previsão de passagem próximo à Terra sem risco fora do comum. Observações telescópicas adicionais provavelmente reclassificarão para nível 0.
2 Atenção Astronômica (Amarelo) Encontro próximo mas não incomum. Colisão muito improvável. Merece atenção dos astrônomos, mas não há necessidade de atenção do público e de autoridades.  Observações adicionais provavelmente reclassificarão para nível 0.
3 Atenção Astronômica (Amarelo) Encontro próximo com chance de colisão ≥1% capaz de causar destruição localizada. Observações adicionais provavelmente reclassificarão para nível 0. Atenção do público e de autoridades é necessária se o evento ocorrer em menos de uma década.
4 Atenção Astronômica (Amarelo) Encontro próximo com de chance de colisão ≥1%, capaz de causar devastação regional. Observações adicionais provavelmente reclassificarão para nível 0. Atenção do público e de autoridades é necessária se o evento ocorrer em menos de uma década.
5 Ameaça (Laranja) Risco sério (porém incerto) de devastação regional. Atenção da comunidade astronômica é necessária para determinar conclusivamente se a colisão ocorrerá ou não. Planejamento governamental necessário se o evento ocorrer em menos de uma década.
6 Ameaça (Laranja) Risco sério (porém incerto) de catástrofe global. Atenção da comunidade astronômica é necessária para determinar conclusivamente se a colisão ocorrerá ou não. Planejamento governamental necessário se o evento ocorrer em menos de 30 anos.
7 Ameaça (Laranja) Encontro extremamente próximo com grande objeto, que se ocorrer dentro de um século, ameaça catástrofe global sem precedentes (porém incerta). Planejamento internacional é requerido para determinar conclusivamente e com urgência se a colisão ocorrerá ou não.
8 Colisão Certa (Vermelho) Colisão certa capaz de destruição localizada (terrestre) ou tsunami (oceânico). Frequência média: 1 evento a cada 50 a 1000 anos.
9 Colisão Certa (Vermelho) Colisão certa capaz de devastação regional sem precedentes para colisão em terra ou grande tsunami para colisão no oceano. Frequência média: 1 evento a cada 10.000 a 100.000 anos.
10 Colisão Certa (Vermelho) Colisão certa capaz de catástrofe climática global com potencial para ameaçar o futuro da civilização. Frequência média: menos de 1 evento a cada 100.000 anos.

Referências

[1] – Vasconcelos et al., The Serra da Cangalha impact structure, Brazil: Geological, stratigraphic and petrographic aspects of a recently confirmed impact structure,
Journal of South American Earth Sciences, Volume 45, 2013, Pages 316-330,
ISSN 0895-9811, https://doi.org/10.1016/j.jsames.2013.03.007. Acesso em 12/2/2025.
[2] – Earth Impact Database – http://www.passc.net/EarthImpactDatabase/New%20website_05-2018/SouthAmerica.html. Acesso em 12/2/2025.
[3] – Revista Pesquisa FAPESP, Serra da Cangalha – Marcas de um Meteorito, https://revistapesquisa.fapesp.br/marcas-de-um-meteorito/ . Acesso em 12/2/2025.
[4] – Thomas, C.A., Naidu, S.P., Scheirich, P. et al. Orbital period change of Dimorphos due to the DART kinetic impact. Nature 616, 448–451 (2023). https://doi.org/10.1038/s41586-023-05805-2
[5] – Cheng, A.F., Agrusa, H.F., Barbee, B.W. et al. Momentum transfer from the DART mission kinetic impact on asteroid Dimorphos. Nature 616, 457–460 (2023). https://doi.org/10.1038/s41586-023-05878-z. Acesso em 12/2/2025.
[6] Li, JY., Hirabayashi, M., Farnham, T.L. et al. Ejecta from the DART-produced active asteroid Dimorphos. Nature 616, 452–456 (2023). https://doi.org/10.1038/s41586-023-05811-4. Acesso em 12/2/2025.
[7] Nancy Chabot, Elena Adams, Andy Rivkin, Jason Kalirai. DART: Latest results from the Dimorphos impact and a look forward to future planetary defense initiatives, Acta Astronautica, Volume 220, 2024, 118-125. https://doi.org/10.1016/j.actaastro.2024.04.001. Acesso em 12/2/2025.
[8] J. L. Tonry, L. Denneau, A. N. Heinze, B. Stalder, et al. ATLAS: A High-Cadence All-Sky Survey System. Publications of the Astronomical Society of the Pacific, Volume 130, 988. (2018) http://dx.doi.org/10.1088/1538-3873/aabadf . Acesso em 12/2/2025.
[9] Hannah Ritchie (2022) – “There have been five mass extinctions in Earth’s history” Publicado online em OurWorldinData.org. : ‘https://ourworldindata.org/mass-extinctions‘. Acesso em 15/2/2025.
[9] Urrutia-Fucugauchi, Jaime, Camargo-Zanoguera, Antonio, Pérez-Cruz, Ligia, Pérez-Cruz Guillermo . The Chicxulub multi-ring impact crater, Yucatan carbonate platform, Gulf of Mexico. Geofísica Internacional. 2011, 50(1), 99-127. ISSN: 0016-7169. Disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=56820060007. Acesso em 18/2/2025.

Cite esta publicação:
Wandeclayt M. (2025) - “A Ameaça Vem do Céu” Publicado online em CeuProfundo.com. Acessado em: 'https://www.ceuprofundo.com' [Recurso Online]

@article{ameacaNEO,
    author = {Wandeclayt M.},
    title = {A Ameaça Vem do Céu},
    journal = {Céu Profundo},
    year = {2025},
    url = {https://ceuprofundo.com}
}

Cometa no radar: como observar o C/2024 G3 (ATLAS)

A temporada de cometas de 2025 começou cedo! O cometa C/2024 G3 (ATLAS) fez uma espetacular passagem pelo campo de visão do telescópio solar espacial SOHO entre os dias 12 e 14 de janeiro, exibindo uma magnífica cauda e nos deixando com água na boca para fazer imagens também a partir do solo.

Vídeo do Cometa C/2024 G3 (ATLAS) gerado a partir de imagens do telescópio solas espacial SOHO (NASA/ESA)

A imagem abaixo, com cores falsas, gerada a partir dos dados da câmera LASCO C3 a bordo do telescópio espacial SOHO mostra a cauda do C/2024 G3 (ATLAS) curvando-se enquanto o cometa contorna o Sol durante sua passagem pelo periélio.

Frustrando as expectativas de observadores na maior parte do Brasil, nuvens turvaram por vários dias após a passagem do cometa pelo periélio. Em São José dos Campos, apenas nesta segunda (20/1) tivemos o horizonte oeste suficientemente desobstruído para podermos imagear um dos cometas mais brilhantes do século.

Na imagem abaixo, capturada através de objetiva de 85 mm de distância focal e relação focal f/1.5, temos uma visão muito próxima do que observamos a olho nu. Sem dificuldade pudemos identificar o cometa e resolver sua cauda aproximadamente meia hora após o pôr do Sol.

Cometa C/2024 G3 (ATLAS) fotografado em São José dos Campos (SP) com objetiva de 85mm. Esta é a imagem mais próxima visão a olho nu do cometa na segunda 20/1. Créditos: Wandeclayt M./@ceuprofundo

A fotografia com teleobjetivas revela ainda mais detalhes da estrutura da cauda do cometa. A imagem abaixo, capturada através de teleobjetiva fixa de 300 mm f/2.8, num frame único, mostra a complexidade da cauda. Detalhes ainda mais sutis podem ser resolvidos através do empilhamento de múltiplos frames, quando as condições da atmosfera permitem uma sequência maior de imagens. Em nosso caso, tivemos apenas uma breve janela entre as nuvens que concentravam na direção do horizonte oeste.

Cometa C/2024 G3 (ATLAS) fotografado em São José dos Campos (SP) com objetiva de 300mm. Créditos: Wandeclayt M./@ceuprofundo

Por último, nos surpreendemos com a faixa de poeira visível através do telescópio. Em um frame único, com um leve processamento para aumento do contraste, capturado através de telescópio Schmidt Cassegrain de 203 mm f/10, pudemos capturar a imagem abaixo. A região do núcleo do cometa não é visível e pode estar oculta pela poeira.

Cometa C/2024 G3 (ATLAS) fotografado em São José dos Campos (SP) com câmera DSLR através de telescópio Schmidt Cassegrain Celestron Nexstar SE8. Créditos: Wandeclayt M./@ceuprofundo

Como encontrar o cometa?

Embora as imagens impressionem, a experiência realmente memorável é poder ver um cometa tão brilhante a olho nu. Se a meteorologia for favorável em sua localização, não perca a oportunidade de observar o C/2024 G3 (ATLAS). Para encontrá-lo, olhe na direção do poente aproximadamente meia hora após o pôr do Sol. Se tiver dificuldade para detectá-lo, tente usar a técnica da visão periférica: não olhe diretamente para a direção do cometa. Em vez disso, use o canto do olho para tentar perceber um borrão alongado no céu.

O mapa abaixo foi confeccionado para a latitude de São José dos Campos, mas pode ser utilizado em outras localidades, usando Vênus e a estrela Formalhaut como referência.

Mas se é imagem que você quer, não é só com telescópios e câmeras DSLR que podemos capturar detalhes do cometa. A imagem abaixo, registrada por nosso colaborador Matheus Queiroz no Distrito Federal é um exemplo do que podemos obter com um celular e binóculos (Adicione além dos instrumentos experiência, dedicação e paixão pela astronomia e certamente você vai acabar conseguindo resultados como esse).

Cometa C/2024 G3 (ATLAS) registrado com celular através de binóculos astronômicos. Créditos: Matheus Queiroz.

O C/2024 G3 é uma bela surpresa já no primeiro mês de 2025. Mas o ano está apenas começando e esperamos que vocês sigam nos acompanhando e compartilhando o céu que tanto nos fascina. Torcemos para que outros cometas brilhantes possam os surpreender e se juntar aos eventos previstos e que publicamos a cada mês em nosso calendário astrônomico. Mas mesmo que mais nenhum cometa salte aos nossos olhos, já tivemos um espetáculo inesquecível para iniciar o ano!

Alerta de Cometa: C/2024 G3 (ATLAS) abre a temporada de cometas 2025

Imagem do cometa C/2024 G3 (ATLAS) capturada pelo observatório espacial SOHO. O cometa surge na borda da imagem, como um ponto brilhante seguido por uma cauda em forma de leque. Na área central, um anteparo escuro esconde o Sol.
Cometa c/2024 G3 (ATLAS) registrado pela câmera LASCO C3 do telescópio solar espacial SOHO (NASA/ESA) em 11 de janeiro de 2025, dois dias antes da passagem do cometa pelo periélio. A região escura na imagem é um anteparo que oculta o Sol, gerando um eclipse artificial para as imagens do SOHO. O Sol está na região central da imagem. [Imagem processada por Wandeclayt M. a partir de dados brutos da câmera LASCO C3]

Descoberto em abril de 2024 e com sua órbita quase que inteiramente ao sul da eclíptica, o cometa C/2024 G3 (ATLAS) é o presente que os observadores no hemisfério sul esperavam!

Além do espetáculo proporcionado pelos planetas durante o mês de janeiro, um cometa brilhante é sempre motivo para euforia na astronomia amadora e desta vez, se a meteorologia nos ajudar, o Brasil será um camarote privilegiado para a observação deste visitante dos confins do Sistema Solar. E este privilégio é consequência da inclinação da órbita do cometa, mantendo-o no hemisfério sul celeste após a passagem pelo periélio.

Órbita do cometa C/2024 G3 gerado no visualizador Orbit Viewer da plataforma JPL Horizons.

Curva de Brilho

Durante a última semana de dezembro e primeira semana de janeiro, o C/2024 G3 (ATLAS) foi um alvo difícil ao amanhecer em meio a persistentes nuvens em muitas regiões do Brasil. Mas observadores ao redor do mundo seguiram monitorando sua evolução e reportando seu promissor aumento de brilho.

Curva de brilho do cometa C/2024 G3 (ATLAS) com dados reportados à plataforma COBS [dados/gráfico: COBS]

Agora nos resta esperar que o cometa sobreviva a sua passagem pelo ponto de sua órbita mais próximo do Sol, o periélio, para que possa emergir em seguida no céu do entardecer com brilho suficiente para que possa ser visto sem esforço através de pequenos telescópios e binóculos, ou quem sabe, a olho nu.

Como encontrá-lo?

Para localizá-lo, olhe para o poente, logo após o pôr do Sol, a partir do dia 14 de janeiro, ligeiramente ao Sul do ponto em que o Sol se pôs. O mapa abaixo mostra a trajetória do cometa ao logo de todo o mês de janeiro, realçando a posição do Sol e do cometa no dia da passagem pelo periélio (13/01)

Posição do cometa C/2024 G3 (ATLAS) durante o mês de janeiro de 2025. [gráfico: Wandeclayt M./@ceuprofundo]

Estamos apenas em janeiro, mas este já é um fore candidato ao título de cometa do ano! Estaremos de olho em sua evolução e com câmeras e telescópios apontados em sua direção. Fiquem de olho aqui no blog e em nossas redes sociais para dicas de observação e notícias de última hora! O ano apenas começou, mas o céu não vai esperar o carnaval para desfilar seus astros brilhantes em frente aos telescópios.

Alinhamento dos Planetas (É Raro, mas Acontece Muito!)

A Lua e seis planetas registrados simultaneamente na mesma imagem em 25 de junho de 2022. Saturno estava visível no céu, mas fora do campo da imagem. Urano e Netuno não são visíveis a olho nu. [Wandeclayt M./@ceuprofundo].

Você já deve ter esbarrado em postagens nas redes sociais alardeando um raríssimo alinhamento dos planetas que ocorreria em algum momento de 2025, não? Então esse post é pra você!

Precisamos falar um pouco sobre isso! Mas primeiro vamos esclarecer alguns conceitos astronômicos pra alinhar nossa conversa.

Alinhamento dos Planetas x Conjunção

A imagem que abre este post mostra 6 planetas e a Lua simultaneamente na mesma imagem. Saturno também estava visível no céu, mas estava fora do campo da câmera. É fácil notar que todos esses objetos estão aproximadamente sobre a mesma linha. E isso não é uma coincidência!

Os planetas Marte e Júpiter no alto da imagem, ao amanhecer, com a Lua e Vênus visíveis próximos do horizonte, sobre a Universidade do Vale do Paraíba (UNIVAP) em São José dos Campos. Imagem registrada na madrugada de 25 de maio de 2022. [Wandeclayt M./@ceuprofundo].

Todos os planetas orbitam o Sol aproximadamente no mesmo plano, então sempre os veremos próximos da linha que conhecemos como eclíptica. A eclíptica desenha no céu, o plano da órbita terrestre em torno do Sol.

Assim, veremos sempre os planetas alinhados. Formando esse cortejo no céu. No entanto, este alinhamento dos planetas não é uma CONJUNÇÃO.

Então, o que seria uma “Conjunção“?

Conjunções entre a Lua e os planetas, como esta entre Lua e Vênus (os dois objetos mais brilhantes na imagem), registrada em 05 de outubro de 2024, na direção da constelação de Libra, não são eventos raros. Mas testemunhar este encontro no céu do maior observatório astronômico em solo brasileiro torna este um evento especial. Sobre a cúpula do telescópio Perkin-Elmer de 1,60m vemos ainda a esplendorosa região central da Via Láctea. [Wandeclayt M./@ceuprofundo]

Quando vemos um objeto do Sistema Solar na mesma direção de outro objeto, que pode ou não ser do Sistema Solar, dizemos que esses objetos estão em conjunção. Ou seja, ambos estão posicionados ao longo de nossa linha de visada. Na imagem acima, vemos uma conjunção entre Vênus e a Lua.

A cada mês, por exemplo, ao orbitar a Terra, a Lua emparelhará com cada um dos planetas e com algumas estrelas brilhantes. Em nosso calendário astronômico mensal, sempre indicamos essas conjunções entre a Lua e planetas e estrelas.

Em geral, não há nada de raro nessas conjunções, que sempre acontecem a cada mês. No entanto, em algumas ocasiões o alinhamento dos planetas com a Lua é tão perfeito que a Lua chega a ocultar o objeto mais distante, como na imagem abaixo, quando a Lua ocultou Marte na madrugada de 6 de setembro de 2020. Em 2020, duas ocultações de Marte foram visíveis de parte do Brasil.

Ocultação de Marte pela Lua em 6 de setembro de 2020, registrada através do telescópio de 0,30 m do Observatório da UNIVAP, em São José dos Campos (SP). [Wandeclayt M./@ceuprofundo]

Você agora entendeu o conceito mais importante deste post: numa conjunção, temos um alinhamento dos planetas ou de outros astros ao longo de nossa linha de visada.

Sem alinhamento dos planetas não tem nada legal pra ver no céu?

Tem muita coisa legal pra ver no céu sim! Mas o Universo é um lugar bem grande e sempre tem algo fascinante pra ser observado. Uma conjunção é certamente um belo evento, mas observar os planetas separados também é uma experiência que não dispensamos! No início de Janeiro poderemos ver a Lua pouco depois da fase nova emparelhando com Vênus e Saturno no céu.

A simulação abaixo mostra a conjunção de Lua e Vênus no anoitecer do dia 3 de janeiro. Mas a cada dia, a Lua se desloca um pouco para leste e seguirá emparelhando com cada um dos planetas. Marte, Júpiter, Saturno e Vênus seguirão visíveis durante todo o mês de Janeiro, então se é alinhamento dos planetas que você quer, que tal observar a Lua em conjunção com cada um deles?

Marte, Júpiter, Saturno, Vênus e a Lua visíveis simultaneamente no céu no dia 3 de janeiro de 2025. A linha laranja é a eclíptica, a linha que marca o plano da órbita terrestre em torno do Sol. Todos os planetas possuem órbitas em planos similares e aparecem sempre próximos à eclíptica. Simulação no software livre Stellarium. [Wandeclayt M./@ceuprofundo].

Utilizando o visualizador de órbitas do sitema Horizons do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, criamos essa visualização do sistema solar no dia 3 de janeiro, correspondendo a simulação acima. Podemos ver que os planetas orbitam aproximadamente no mesmo plano, mas que não estão alinhados.

E a moral da história?

A conclusão que podemos tirar não é exatamente uma novidade: tem muita gente falando bobagem e postando conteúdo sensacionalista sobre astronomia nas redes sociais para ganhar cliques (e dinheiro). Mas, felizmente, o Universo não precisa de sensacionalismo para ser um lugar sensacional!

Procure um lugar escuro, longe da poluição luminosa dos centros urbanos, e deleite-se com as belezas do céu. Mas nem precisa de telescópio pra isso. Um céu escuro pode revelar a olho nu dezenas de objetos de céu profundo, como nebulosas, aglomerados estelares e até algumas galáxias mais próximas.

Com binóculos a experiência é ainda mais recompensadora, mergulhando em objetos mais extensos que sequer cabem inteiros no campo da ocular de um telescópio. Inclusive, binóculos são os instrumentos ideais para a observação de cometas (permitindo que vejamos uma grande extensão de sua cauda) e de conjunções planetárias, já que é incomum que os planetas fiquem próximos o suficiente para serem vistos simultaneamente através de um telescópio.

Marte, Júpiter e o aglomerado aberto das Híades, na direção da constelação de Touro, em agosto de 2024. [Wandeclayt M./@ceuprofundo]

Não Deixe o Cometa se Tornar a Frustração do Século!

O cometa C/2023 A3 (Tsuchinshan-ATLAS) é realmente um dos cometas mais brilhantes das últimas décadas. Como uma vantagem adicional para observadores no hemisfério sul, a passagem pelo periélio, o ponto da órbita do cometa mais próximo ao Sol, ocorreu com o cometa ao Sul da eclíptica – o plano da órbita terrestre – nos garantindo uma visão privilegiada no período de maior brilho do cometa.

Cometa C/2023 A3 (Tsuchinshan-ATLAS) exibindo uma longa cauda na constelação de Leão, fotografado em uma região afastada da poluição luminosa em São José dos Campos (SP). [imagem: Wandeclayt M./Projeto Céu Profundo]

A imagem que abre esta postagem foi capturada na madrugada de 02 de outubro, em São José dos Campos (SP), numa região afastada da zona urbana da cidade. Acordamos às 3 da manhã e nos deslocamos até às margens da rodovia Carvalho Pinto, para evitar a contaminação das luzes da cidade na imagem. Esse esforço garantiu que a longa cauda do cometa fosse registrada quase que preenchendo todo o campo da imagem, com uma objetiva de 85 mm.

Uma imagem inegavelmente deslumbrante, não? Mas todo esse esplendor que tem deixado eufórica a comunidade da astrofotografia está muito longe do que pode ser contemplado a olho nu.

Na verdade, encontrar o cometa tão baixo no horizonte e mergulhado nos primeiros raios do amanhecer é uma tarefa desafiadora. E se você espera uma imagem tão contrastada e brilhante quanto as que você certamente tem visto publicadas, a única coisa que vai encontrar é frustração.

Então não Vou Ver o Cometa?

Há algumas dicas para melhorar sua experiência ao observar um cometa. A primeira vale pra qualquer tipo de observação de objetos tênues no céu: afaste-se da poluição luminosa! As luzes da cidade mascaram os objetos menos luminosos ou mais difusos.

E mesmo que você se afaste em direção a áreas rurais ou zonas nas periferias da cidade, evite ter luzes fortes na vizinhança, especialmente luzes que você possa ver diretamente. Olhar para telas também vai prejudicar sua adaptação à escuridão, então deixe seu celular no bolso se quiser manter suas pupilas dilatadas.

Outro obstáculo a ser contornado é a baixa elevação do cometa sobre o horizonte. É preciso procurar locais com vista desobstruída na direção do cometa. De preferência locais que permitam ver pelo menos a partir de 5º acima do horizonte.

Mas a Iluminação Atrapalha Tanto Assim?

Na imagem abaixo é possível perceber o impacto da poluição luminosa. O brilho do céu, causado pela excessiva e mal direcionada iluminação da cidade, oculta estrelas e diminui a visibilidade do cometa. A rede de observadores de cometas COBS estima magnitude próxima a 1.5 no momento da foto.

Em um local escuro e com o cometa alto no céu, isso significaria um objeto muito brilhante! Mas no meio da cidade e com o objeto baixo, observado através de uma camada muito mais espessa da atmosfera (com o agravante da presença da fumaça das queimadas) o cometa é apenas marginalmente percebido a olho nu. E as luzes da cidade são refletidas e espalhadas pelas partículas em suspensão, deixando o céu excessivamente brilhante!

Nessas condições, o “Cometa do Século” fica reduzido a pouco mais que uma sutil manchinha que parece sumir quando olhamos diretamente para ela.

Cometa C/2023 A3 (Tsuchinshan-ATLAS) fotografado sobre a cidade de São José dos Campos (SP). O cometa está a menos de 10º acima do horizonte, imerso na poluição luminosa. Apesar de exibir bom contraste e brilho na imagem, o cometa não era facilmente perceptível a olho nu. [imagem: Wandeclayt M./Projeto Céu Profundo].

É preciso também saber exatamente para onde olhar! Você pode se orientar pelo mapa abaixo, ou consultar diagramas mais detalhados como os fornecidos pelo site TheSkyLive.

E com Instrumentos?

O brilho do cometa evoluiu bem após a passagem pelo periélio, mas isso não garante que ele seja facilmente perceptível a olho nu, principalmente de dentro de áreas urbanas. Mas telescópios não são os melhores instrumentos para a observação de cometas. Com os grandes aumentos e pequenos campos proporcionados pelos telescópios, vemos apenas a região ao redor do núcleo do cometa. Se você quer uma visão mais ampla, binóculos são os instrumentos ideais. Binóculos com 50 mm de abertura e 7 aumentos (identificados como 7×50) são uma boa escolha: são leves, produzem imagens luminosas e com grande campo e são relativamente baratos.

Curva de luz do cometa C/2023 A3, medida por observadores da rede COBS.

Tudo Vale a Pena (Se a Alma Não é Pequena).

Mas merecendo o título “Cometa do Século”ou não, faça um esforço para observar com seus próprios olhos o C/2023 A3 e qualquer outro cometa que esteja acessível de sua latitude. São eventos raros e cada cometa é único! Cada um destes visitantes dos confins do Sistema Solar evolui de maneiras distintas, podendo desenvolver uma ou mais caudas, com diferentes geometrias, comprimentos brilhos e composição. Sua evolução também pode ser bastante dinâmica exibindo grandes variações de brilho e erupções ou mesmo podendo se fragmentar.

E mesmo que os cometas não sejam realmente os faróis ofuscantes que os títulos das manchetes ou os posts em redes sociais querem nos fazer crer sejam, vale a pena o esforço de buscar locais e condições melhores para observar essas “manchinhas”. Pode ser uma jornada realmente trabalhosa, mas garantimos que são grandes as chances de a experiência se tão recompensadora que você sentir a tentação de se juntar definitivamente à turma da caça aos cometas!

Calendário Astronômico – O Céu de Agosto/2024

Calendário Astronômico

Efemérides foram computadas usando as bibliotecas astropy e astroquery em Python e o software Occult v4.

    Data e Hora   | Evento

    2024-08-01 02 | Lua mais ao norte (28.5°)
    2024-08-02 19 | Pollux 1.8°N da Lua
    2024-08-04 04 | Mercúrio estacionário
    2024-08-04 08 | LUA NOVA
    2024-08-04 14 | Marte 4.9°N de Aldebarã
    2024-08-05 02 | Vênus 1.0°N de Regulus
    2024-08-05 18 | Regulus 2.7°S da Lua
    2024-08-05 20 | Vênus 1.6°S da Lua
    2024-08-07 23 | Mercúrio 5.8°S de Vênus
    2024-08-08 21 | Lua no apogeu
    2024-08-10 07 | Spica 0.6°S da Lua Ocultação(*)
    2024-08-11/12 | Pico da chuva de meteoros Perseídeos (ZHR > 50)
    2024-08-12 12 | QUARTO CRESCENTE
    2024-08-14 02 | Antares 0.0°N da Lua Ocultação(*)
    2024-08-14 12 | Marte 0.3°N de Júpiter
    2024-08-14 12 | Mercúrio 5.2°S de Regulus
    2024-08-15 16 | Lua mais ao sul (-28.5°)
    2024-08-17 19 | Plutão 1.5°N da Lua
    2024-08-18 22 | Mercúrio em conjunção inferior
    2024-08-19 15 | LUA CHEIA
    2024-08-20 23 | Saturno 0.4°S da Lua Ocultação(**)
    2024-08-21 02 | Lua no perigeu
    2024-08-21 18 | Netuno 0.6°S da Lua Ocultação(*)
    2024-08-25 19 | Urano 4.3°S da Lua
    2024-08-26 06 | QUARTO MINGUANTE
    2024-08-27 08 | Júpiter 5.6°S da Lua
    2024-08-27 20 | Marte 5.3°S da Lua
    2024-08-27 21 | Mercúrio estacionário
    2024-08-28 07 | Lua mais ao norte (28.6°)
    2024-08-30 01 | Pollux 1.7°N da Lua

(*) Evento não visível do Brasil.
(**) Evento visível de parte do Brasil. Ver mapa.

Os planetas em Agosto/2024

Mercúrio inicia agosto visível no horizonte oeste logo após o pôr do Sol, mas a partir do dia 4 (Mercúrio estacionário) volta a se aproximar do Sol e atinge a conjunção inferior (quando o planeta encontra-se à frente do Sol, para um observador na Terra) no dia 19.


A combinação dos movimentos orbitais de Mercúrio e da Terra faz com que o pequeno planeta aparente estar se movendo no sentido oposto ao seu movimento real durante a maior parte do mês de agosto.

Este movimento retrógrado é apenas um efeito de perspectiva: o movimento orbital real de Mercúrio corresponde à linha azul no gráfico à esquerda na imagem abaixo. A linha verde corresponde ao movimento da Terra.

Marte e Júpiter

Marte e Júpiter protagonizam um belo encontro no dia 14/08, com os dois planetas se aproximando o suficiente para aparecerem juntos na ocular do telescópio. Abaixo, na imagem simulada do software Stellarium vemos o campo de uma ocular de 26mm num telescópio Schmidt-Cassegrain de 203 mm de diâmetro com relação focal f/10.

Conjunção Marte-Júpiter em 14 de agosto. Simulação da visão através de telescópio Schmidt-Cassegrain de 203 mm de diâmetro f/10, com ocular de 26 mm (com campo aparente de 52º). [Céu Profundo/Stellarium]

Saturno

Saturno volta timidamente ao céu da primeira metade da noite e é o palco dois grandes eventos: primeiro uma desafiadora observação na madrugada do dia 01/08: o trânsito do satélite Titã em frente ao disco do planeta. (os diagramas gerados pelo software Occult 4 estão no final deste post.

O segundo evento relevante para Saturno em agosto é uma ocultação do planeta pela Lua, na noite de 20 para 21 de agosto. Na América do Sul, a ocultação é visível na região em cinza no mapa abaixo, o que inclui a região Norte e partes das regiões Nordeste e Centro-Oeste.

Perseídeos

A chuva de meteoros mais popular do hemisfério norte, formada por restos do cometa 109P/Swift-Tuttle, inevitavelmente invadirá os sites de notícias com títulos chamativos. Mas é bom controlar as expectativas: para observadores no hemisfério sul esta não é uma chuva muito promissora.

O radiante ( o ponto do céu de onde a trajetória dos meteoros parece irradiar) ao norte da constelação de Perseu fica muito baixo no horizonte norte para observadores no hemisfério austral. Feita essa advertência, passar a noite sob um céu estrelado caçando meteoros é sempre uma boa experiência.

Não espere ver o mesmo número de meteoros que um observador na Europa ou na América do Norte, mas encontre um local afastado da poluição luminosa e recline-se em uma cadeira de praia o outra superfície que permita ter uma ampla visão do céu. O pico da atividade da chuva ocorre na madrugada de 11 para 12 de agosto.

============================================================

Trânsito de Titã sobre o disco de Saturno. Entrada 2024-08-01 2h (GMT-3).
Trânsito de Titã sobre o disco de Saturno. Saída 2024-08-01 5h (GMT-3).