Calendário Astronômico – Setembro 2026

Primavera nos céus do sul!

O glorioso céu de inverno começa a se despedir e abre espaço para novos tesouros celestes em nosso calendário astronômico. A bandeirada final para a estação fria e a largada para a estação das flores é a passagem do Sol pelo equador celeste no dia 22 de setembro às 21:05h, marcando o equinócio de primavera no hemisfério sul e de outono no hemisfério norte.

É quando a noite e o dia claro tem exatamente a mesma duração e ambos os hemisférios estão igualmente iluminados pelo Sol.

Observe o nascer e o pôr do Sol entre os dias 22 e 23 para identificar os pontos cardeais leste e oeste! Apenas nos equinócios o Sol nasce exatamente nestes pontos.

E que tal inciar um projeto fotográfico registrando o nascer ou o pôr do Sol em diferentes estações? O resultado vai ser parecido com o quadro abaixo, composto por imagens que registramos em São José dos Campos (SP).

Pôr do Sol no início das diferentes estações fotografado a partir do mesmo ponto em São José dos Campos - SP. Há quatro imagens alinhadas da mesma paisagem. A primeira imagem, do equinócio de março, mostra o Sol exatamente no ponto cardeal oeste. Em junho, o Sol aparece se pomdo 23 graus ao norte. Em setembro, no equinócio, o Sol se pões novamente no ponto cardeal oeste. Na imagem de dezembro, no solstício de verão, o Sol aparece se pondo 23 graus ao sul. Nosso calendário é sincronizado com esse ciclo.
Pôr do Sol em São José dos Campos. Registrado a partir do mesmo ponto no início de cada uma das estações do ano. Imagens/Composição: Wandeclayt M./Projeto Céu Profundo.

Mas há muito mais que o equinócio para colocar na sua agenda em setembro! Confira abaixo nosso calendário astronômico e logo em seguida, os destaques do mês e a posição dos planetas do Sistema Solar durante o mês.

Calendário Astronômico – SETEMBRO/2026

Data e Hora    | Evento

2026/09/02 04h | Vênus 1,5° S de Spica
2026/09/03 05h | Lua a 3° das Plêiades
2026/09/03 18h | Urano 5,4° S da Lua
2026/09/04 04h | Quarto minguante
2026/09/05 03h | Lua na máxima declinação norte (28,1°)
2026/09/06 16h | Marte 2,9° S da Lua
2026/09/06 17h | Lua no perigeu
2026/09/07 03h | Pollux 3,6° N da Lua
2026/09/08 15h | Júpiter 0,8° S da Lua (Ocultação)*
2026/09/09 16h | Regulus 0,5° N da Lua (Ocultação)*
2026/09/10 15h | Urano estacionário
2026/09/11 00h | Lua nova
2026/09/12 01h | Mercúrio 3,4° N da Lua
2026/09/13 16h | Spica 2,2° N da Lua
2026/09/14 08h | Vênus 0,5° S da Lua (Ocultação)*
2026/09/17 06h | Marte 5,9° S de Pollux
2026/09/17 09h | Antares 0,5° N da Lua (Ocultação)*
2026/09/18 15h | Lua na máxima declinação sul (-28,1°)
2026/09/18 17h | Quarto crescente
2026/09/18 23h | Lua no apogeu
2026/09/21 20h | Plutão 2,0° S da Lua
2026/09/22 21h | Equinócio
2026/09/25 22h | Netuno em oposição
2026/09/26 04h | Mercúrio 0,9° N de Spica
2026/09/26 12h | Netuno 4,3° S da Lua
2026/09/26 13h | Lua cheia
2026/09/30 23h | Urano 5,3° S da Lua

* Ocultação não visível do Brasil.

Destaques do Mês

A Lua

Ao percorrer sua órbita ao redor da Terra a Lua inevitavelmente proporciona encontros deslumbrantemente fotogênicos todos os meses. Em setembro, destacamos alguns desses encontros para você marcar na agenda:

Conjunção Lua-Plêiades (03/09)

Na madrugada do dia 3 de setembro a Lua passa a cerca de 3 graus do famoso aglomerado das Plêiades, na constelação de Touro. Observe pouco antes do nascer do Sol, já que a máxima aproximação acontecerá durante o dia.

Conjunção entre Lua e Plêiades em 03 de setembro de 2026. Simulação; Stellarium 26.2.0/Wandeclayt M./Projeto Céu Profundo.

Conjunção Vênus-Lua (14/09)

No entardecer de 14 de setembro, Vênus e a Lua decoram o horizonte oeste. Dica: tente identificar Vênus um pouco abaixo da Lua ainda com o dia claro.

Conjunção entre Lua e Vênus, em 14 de setembro de 2026. Simulação; Stellarium 26.2.0/Wandeclayt M./Projeto Céu Profundo.

Planetas

Nenhum alinhamento incomum acontecerá em setembro, mas isso não significa que os observadores de planetas passarão o mês sem se encantar com imagens do Sistema Solar!

Conjunção Vênus e Spica (alfa da Virgem)

Iniciando as conjunções planetárias do mês, Vênus e Spica se encontram ao entardecer do dia 2 de setembro no horizonte oeste. O brilhante planeta passa a apenas 1,5° da estrela Spica (magnitude 0,97), a alfa da constelação de Virgem. É uma excelente oportunidade de observação a olho nu ou com binóculos.

Conjunção Mercúrio e Spica (alfa da Virgem)

Se você ainda não tiver companhia para a noite do sábado 26 de setembro, vai ficar com inveja desse date triplo. Mercúrio passa a menos de 1° da estrela Spica, a alfa da constelação de Virgem, mas Vênus está de olho na dupla e logo os seguirá em direção ao horizonte oeste. Lulu Santos já ensinou que “Todo mundo espera alguma coisa de um sábado à noite“, mas agora aprendemos que isso também vale para planetas e estrelas.

Vênus, Mercúrio e a estrela Spica no entardecer de 26 de setembro. Simulação; Stellarium 26.2.0/Wandeclayt M./Projeto Céu Profundo.

Os gráficos abaixo mostram a separação entre o planeta Vênus e o Sol e entre o planeta Mercúrio e o Sol ao longo do ano de 2026. As linhas laranjas indicam que o planeta é visível ao anoitecer e as linhas azuis indicam visibilidade ao amanhecer. Quanto maior a separação, mais fácil a observação do planeta.

O planeta Vênus seguirá deslumbrante no início das noites, inclusive com brilho suficiente para ser observado ainda no céu diurno (se você ouber exatamente para onde olhar). Mas sua elongação (o ângulo de separação entre o Sol e o planeta) começa a diminuir, mergulhando o planeta cada vez mais cedo no horizonte oeste, até que ele ressurja no céu matutino em novembro.

Elongação do planeta Vênus ao longo do ano de 2026. Créditos: Wandeclayt M./Projeto Céu Profundo.

Enquanto Vênus ensaia sua despedida, Mercúrio volta aos céus vespertinos em setembro, caminhando para a máxima elongação leste em outubro.

Elongação do planeta Mercúrio ao longo do ano de 2026. Créditos: Wandeclayt M./Projeto Céu Profundo.

O Senhor dos Anéis está de volta.

Após uma temporada nos céus da madrugada, Saturno volta a aparecer na primeira metade da noite. É uma passagem de bastão de um horizonte ao outro: enquanto Vênus se despede, Saturno assume o protagonismo.

Se tem dúvida de onde encontrar Saturno, a Lua pode dar uma ajudinha no dia 26 de setembro, quando ela nasce escoltando o planeta na direção da constelação de Peixes.

Mapa do Mês – Setembro de 2026

Para identificar os planetas no céu durante o mês, use o mapa abaixo.

E no Céu Profundo?

O centro da Via Láctea segue bem posicionado para observação no início da noite, abrigando dezenas de aglomerados e nebulosas facilmentente localizáveis e observáveis com pequenos instrumentos. O grande aglomerado globular 47 Tucanae também ergue-se no céu ainda na primeira metade da noite. O cardápio de objetos de céu profundo segue farto, mas isso pede um post dedicado a essas maravilhas distantes! E esperamos você aqui de volta para as dicas de como localizar e observar essas joias no mês de setembro.

Todos os textos neste portal são escritos por humanos, sem uso de inteligência artificial generativa. As efemérides são construídas utilizando os software Occult V4.0, Stellarium e o pacote Astroquery em um notebook Python.
Se você encontrou algo errado ou inconsistente, a falha é, orgulhosamente, inteiramente humana.


Nancy Grace Roman – Um novo super telescópio no espaço.

O time de grandes telescópios da NASA ganha um novo e poderoso reforço com o lançamento do telescópio Roman. Um telescópio de 2,4 m de abertura, com a missão de mapear extensas áreas do céu no infravermelho próximo!

renderização 3D mostrando o telescópio Roman contra o céu escuro e estrelado, simulando sua posição em órbita.
Simulação do Telescópio Espacial Nancy Grace Roman em órbita, no ponto lagrangeano L2. (Créditos: NASA/SVS)

O Telescópio Espacial Nancy Grace Roman tem um espelho primário com as mesmas dimensões do utilizado pelo veterano Telescópio Espacial Hubbble, mas com detectores sensíveis em uma faixa mais extensa do infravermelho e com um campo significativamente mais extenso.

Mas nesta quadra da história, em que telescópios terrestres com espelhos entre 8 m e 10 m estão em plena operação e que telescópios gigantes de 25 m e 39 m estão sendo construídos, todos dotados de sistemas que neutralizam os efeitos da turbulência atmosférica, faz sentido colocar no espaço um telescópio de meros 2,4 m de diâmetro?

Em construção no Chile, com participação brasileira, o Telescópio Gigante Magalhães (Giant Magellan Telescope – GMT) integrará 7 espelhos de 8,4 m para compor seu espelho primário de 25 m. (Créditos: Giant Magellan Telescope – GMTO Corporation.)

Faz todo sentido se o objetivo é observar em regiões do espectro em que a atmosfera terrestre é opaca!

Felizmente a atmosfera terrestre bloqueia a radiação nas faixas do ultravioleta e dos raios x, mas além dessas faixas absolutamente nocivas à nossa saúde, a atmosfera também não é transparente para a maior parte da radiação infravermelha. E é na região do infravermelho próximo, com comprimento de onda de até 2300 nanometros, que o Telescópio Roman vasculhará o céu, produzindo dados valiosos para o estudo de alguns dos temas centrais da astronomia atual: matéria escura, energia escura e detecção de exoplanetas.

Wide Field Instrument (WFI)

O coração do Telescópio Roman é o Wide Field Instrument (WFI), uma câmera de 300 megapixels, com capacidade de imageamento no infravermelho próximo e em parte do espectro visível. A câmera é baseada em um conjunto de 18 detectores de 4096×4096 pixels, que cobrirá um campo de 0,8ºx0,4º, correspondendo a 200 vezes o campo coberto pelo canal infravermelho da câmera WFC3 do Telescópio Hubble!

A matriz de 18 sensores no plano focal (Focal Plane Array) do telescópio Nancy Gracy Roman, numa composição que totaliza 300 Megapixels. (Créditos: Detector Characterization Laboratory/Goddard Space Flight Center).

Nunca antes na história deste universo, um telescópio espacial teve uma visão tão ampla!

Lançado em 1990, mas modernizado e reparado em 4 ocasiões (a última delas durante a Service Mission 4, em 2009), o Hubble segue desempenhando um importante papel observando pequenas regiões do céu em alta resolução. Mas cobrir grandes áreas de maneira eficiente é uma tarefa que escapa de suas capacidades. A imagem abaixo compara o campo integrado do Roman com o campo do Hubble e deixa clara a extensão do panorama produzido pelo novo telescópio.

Comparaçnao entre os campos dos telescópios Nacy Grace Roman e Hubble.
Comparação entre os campo sdo telescópio Nancy Grace Roman e Hubble. Créditos: NASA/GSFC/STScI

Três Grandes Levantamentos

A missão central do Telescópio Roman tira vantagem de seu amplo campo de visão para produzir três grandes levantamentos. Um levantamento (ou survey) é grande projeto de mapeamento. Uma espécie de censo astronômico.

O primeiro deles é o Galactic Bulge Time-Domain Survey (Levantamento do Bojo Galáctico no Domínio do Tempo). Neste levantamento, durante 438 dias, uma área de 1,7º quadrados do bojo galáctico será imageada a cada 12 minutos. O objetivo é a detecção de exoplanetas, buracos negros e fenômenos transientes.

No High-Latitude Time-Domain Survey (Levantamento de Alta Latitude no Domínio do Tempo), o “Alta Latitude” se refere a um campo afastado do plano galáctico. Observando na direção do plano da Via Láctea, a visão de outras galáxias é obstruída pela poeira no meio interestelar. É olhando para regiões mais afastadas desse plano que podemos enxergar regiões mais distantes do universo. Neste levantamento, 30h serão dedicadas à observação de uma área de 18º quadrados a cada 5 dias. Ao observar repetidamente a mesma região do céu, espera-se uma massiva detecção de fenômenos transientes, especialmente de um tipo específico de estrelas cataclísmicas: as supernovas tipo Ia. A detecção desse tipo de estrela é importante para a determinação de distâncias em escala cosmológica, permitindo calibrar parâmetros relacionados à velocidade de expansão do universo. Esse é um passo importante para fornecer pistas para o entendimento da energia escura, uma espécie de pressão interna que que parece acelerar a expansão do universo. Este é um dos maiores desafios atuais da astrofísica e da cosmologia.

O High-Latitude Wide-Area Survey (Levantamento de Alta Latitude de Grande Área) cobrirá uma área correspondente a 12% do céu, combinando imageamento e espectroscopia. Estas observações contribuirão principalmente para a compreensão da formação e evolução de galáxias distantes, da distribuição da matéria escura no universo e dos processos de formação estelar.

Os dados desses três levantamentos serão públicos, o que garante que além dos objetivos científicos planejados, a comunidade astronômica poderá vasculhá-los para produzir ciência além dos objetivos iniciais, utilizando dados de alta qualidade que podem avançar outras áreas da pesquisa em astrofísica.

Ciência Cidadã

Ter dados públicos significa que fora da comunidade científica profissional, também é possível acessar e trabalhar livremente com esses dados. Assim como os dados produzidos pelo telescópio Roman, os dados dos telescópios James Webb e Hubble também são livremente acessíveis e podem inclusive ser usados de forma lúdica para a produção de imagens inéditas, utilizando ferramentas gratuitas e de código aberto.

Quer saber como acessar e trabalhar esses dados? A gente te ajuda. Confira essa postagem: https://ceuprofundo.com/2021/01/17/um-hubble-pra-chamar-de-seu/ e também essa playlist em nosso canal do youtube, onde mostramos em detalhes como você também pode ter um telescópio espacial para chamar de seu!

Observatório da UNIVAP acompanha erupção de estrelas!

Com um intervalo de menos de um mês, duas estrelas do hemisfério sul celeste resolveram dar um show pirotécnico ao alcance de pequenos telescópios e binóculos! Faltou só mais uma erupção para o time das variáveis cataclísmicas poder pedir música no Fantástico.

Variáveis Cataclísmicas

As erupções detectadas foram do tipo nova, nas constelações do Lobo e da Vela e ambas estão ao alcance de pequenos telescópios e binóculos e são facilmente fotografáveis com câmeras DSLR.

As novas fazem parte de uma classe de estrelas variáveis conhecidas como cataclísmicas.

Pra saber mais sobre o que gera essas erupções das novas, conversamos com um especialista em variáveis cataclísmicas, o astrofísico Alexandre Oliveira, pesquisador e professor no Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento na UNIVAP, que nos contou:

Uma nova ocorre em sistemas binários compostos por uma estrela compacta, uma anã branca, e uma companheira, que é uma estrela comum. E elas estão tão próximas entre si que há transferência de massa da companheira para a anã branca. Quando essa massa que vai se acumulando na anã branca atinge certas condições de temperatura e pressão, ela é lançada para o espaço na forma de uma erupção, que aumenta drasticamente o brilho do sistema.

V462 Lup

A primeira erupção foi detectada na constelação de Lobo (Lupus), no dia 12 de junho, pela rede de telescópios All Sky Automated Survey for SuperNovae (ASAS-SN) enquanto seu brilho ainda crescia (mag g=8,7). O objeto foi anunciado como uma nova galáctica clássica no Astronomer’s Telegram ATel #17228.

A nova, que também tem as designações V462 Lupi e Nova Lupi 2025, atingiu um brilho no limite da visibilidade a olho nu em locais menos afetados pela poluição luminosa, mas idealmente utilize binóculos e pequenos telescópios para encontrá-la em meio ao rico campo galáctico na constelação do Lobo.

O diagrama abaixo mostra um campo com 2° de largura (o equivalente a 4 Luas Cheias), com o norte para cima e o leste à esquerda, coincidindo com a orientação do campo de binóculos.

A Nova Lupi 2025 ao telescópio.

Ao telescópio, a Nova Lupi 2025 é um alvo fácil. A imagem abaixo foi capturada com um telescópio inteligente Seestar S50, na noite de 26 de junho. A Nova é o objeto mais brilhante no campo de aproximadamente 1° de largura.

Uma erupção é pouco.

Mas uma erupção de nova não foi suficiente e teve dobradinha no mês de junho! A nova brilhante V572 Velorum foi descoberta simultaneamente por dois observadores na Austrália, utilizando câmeras do tipo DSLR no dia 25 de junho, com magnitude visual estimada pelos descobridores entre 5,6 e 5,7. No dia 26 de junho, K. Youshimoto, no japão reportou magnitude 4,9 em observações com CCD, bem dentro do limite de visibilidade a olho nu! [ ATel #17254].

Abaixo vemos a posição da V572 Vel num chart da AAVSO e em seguida em uma simulação do Stellarium.

Posição da Nova V572 Vel em campo gerado no software Stellarium.

A Nova V572 Vel ao telescópio.

A imagem abaixo foi capturada através de um telescópio Seestar S50. A Nova V572 Vel é o objeto mais brilhante no campo.

Nova V572 Vel, capturada através de telescópio Seestar S50 no Observatório da UNIVAP.
Nova V572 Vel. Versão da imagem com indicação de escala e orientação, com coordenadas sobrepostas.

Leia também!

Alinhamento dos Planetas (É Raro, mas Acontece Muito!)

A Lua e seis planetas registrados simultaneamente na mesma imagem em 25 de junho de 2022. Saturno estava visível no céu, mas fora do campo da imagem. Urano e Netuno não são visíveis a olho nu. [Wandeclayt M./@ceuprofundo].

Você já deve ter esbarrado em postagens nas redes sociais alardeando um raríssimo alinhamento dos planetas que ocorreria em algum momento de 2025, não? Então esse post é pra você!

Precisamos falar um pouco sobre isso! Mas primeiro vamos esclarecer alguns conceitos astronômicos pra alinhar nossa conversa.

Alinhamento dos Planetas x Conjunção

A imagem que abre este post mostra 6 planetas e a Lua simultaneamente na mesma imagem. Saturno também estava visível no céu, mas estava fora do campo da câmera. É fácil notar que todos esses objetos estão aproximadamente sobre a mesma linha. E isso não é uma coincidência!

Os planetas Marte e Júpiter no alto da imagem, ao amanhecer, com a Lua e Vênus visíveis próximos do horizonte, sobre a Universidade do Vale do Paraíba (UNIVAP) em São José dos Campos. Imagem registrada na madrugada de 25 de maio de 2022. [Wandeclayt M./@ceuprofundo].

Todos os planetas orbitam o Sol aproximadamente no mesmo plano, então sempre os veremos próximos da linha que conhecemos como eclíptica. A eclíptica desenha no céu, o plano da órbita terrestre em torno do Sol.

Assim, veremos sempre os planetas alinhados. Formando esse cortejo no céu. No entanto, este alinhamento dos planetas não é uma CONJUNÇÃO.

Então, o que seria uma “Conjunção“?

Conjunções entre a Lua e os planetas, como esta entre Lua e Vênus (os dois objetos mais brilhantes na imagem), registrada em 05 de outubro de 2024, na direção da constelação de Libra, não são eventos raros. Mas testemunhar este encontro no céu do maior observatório astronômico em solo brasileiro torna este um evento especial. Sobre a cúpula do telescópio Perkin-Elmer de 1,60m vemos ainda a esplendorosa região central da Via Láctea. [Wandeclayt M./@ceuprofundo]

Quando vemos um objeto do Sistema Solar na mesma direção de outro objeto, que pode ou não ser do Sistema Solar, dizemos que esses objetos estão em conjunção. Ou seja, ambos estão posicionados ao longo de nossa linha de visada. Na imagem acima, vemos uma conjunção entre Vênus e a Lua.

A cada mês, por exemplo, ao orbitar a Terra, a Lua emparelhará com cada um dos planetas e com algumas estrelas brilhantes. Em nosso calendário astronômico mensal, sempre indicamos essas conjunções entre a Lua e planetas e estrelas.

Em geral, não há nada de raro nessas conjunções, que sempre acontecem a cada mês. No entanto, em algumas ocasiões o alinhamento dos planetas com a Lua é tão perfeito que a Lua chega a ocultar o objeto mais distante, como na imagem abaixo, quando a Lua ocultou Marte na madrugada de 6 de setembro de 2020. Em 2020, duas ocultações de Marte foram visíveis de parte do Brasil.

Ocultação de Marte pela Lua em 6 de setembro de 2020, registrada através do telescópio de 0,30 m do Observatório da UNIVAP, em São José dos Campos (SP). [Wandeclayt M./@ceuprofundo]

Você agora entendeu o conceito mais importante deste post: numa conjunção, temos um alinhamento dos planetas ou de outros astros ao longo de nossa linha de visada.

Sem alinhamento dos planetas não tem nada legal pra ver no céu?

Tem muita coisa legal pra ver no céu sim! Mas o Universo é um lugar bem grande e sempre tem algo fascinante pra ser observado. Uma conjunção é certamente um belo evento, mas observar os planetas separados também é uma experiência que não dispensamos! No início de Janeiro poderemos ver a Lua pouco depois da fase nova emparelhando com Vênus e Saturno no céu.

A simulação abaixo mostra a conjunção de Lua e Vênus no anoitecer do dia 3 de janeiro. Mas a cada dia, a Lua se desloca um pouco para leste e seguirá emparelhando com cada um dos planetas. Marte, Júpiter, Saturno e Vênus seguirão visíveis durante todo o mês de Janeiro, então se é alinhamento dos planetas que você quer, que tal observar a Lua em conjunção com cada um deles?

Marte, Júpiter, Saturno, Vênus e a Lua visíveis simultaneamente no céu no dia 3 de janeiro de 2025. A linha laranja é a eclíptica, a linha que marca o plano da órbita terrestre em torno do Sol. Todos os planetas possuem órbitas em planos similares e aparecem sempre próximos à eclíptica. Simulação no software livre Stellarium. [Wandeclayt M./@ceuprofundo].

Utilizando o visualizador de órbitas do sitema Horizons do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, criamos essa visualização do sistema solar no dia 3 de janeiro, correspondendo a simulação acima. Podemos ver que os planetas orbitam aproximadamente no mesmo plano, mas que não estão alinhados.

E a moral da história?

A conclusão que podemos tirar não é exatamente uma novidade: tem muita gente falando bobagem e postando conteúdo sensacionalista sobre astronomia nas redes sociais para ganhar cliques (e dinheiro). Mas, felizmente, o Universo não precisa de sensacionalismo para ser um lugar sensacional!

Procure um lugar escuro, longe da poluição luminosa dos centros urbanos, e deleite-se com as belezas do céu. Mas nem precisa de telescópio pra isso. Um céu escuro pode revelar a olho nu dezenas de objetos de céu profundo, como nebulosas, aglomerados estelares e até algumas galáxias mais próximas.

Com binóculos a experiência é ainda mais recompensadora, mergulhando em objetos mais extensos que sequer cabem inteiros no campo da ocular de um telescópio. Inclusive, binóculos são os instrumentos ideais para a observação de cometas (permitindo que vejamos uma grande extensão de sua cauda) e de conjunções planetárias, já que é incomum que os planetas fiquem próximos o suficiente para serem vistos simultaneamente através de um telescópio.

Marte, Júpiter e o aglomerado aberto das Híades, na direção da constelação de Touro, em agosto de 2024. [Wandeclayt M./@ceuprofundo]

Lajedo de Soledade: Tesouro Arqueológico, Paisagístico e Astronômico.

Vista aérea de uma região rochosa, esculpida por intemperismos. O Sol está no horizonte, começando a iluminar a paisagem. Há um canal (ravina) seprando grnades blocos de rochas na imagem. Vegetação seca se distribui no fundo da ravina e também ao longo do horizonte.
Os primeiros raios do Sol no amanhecer sobre as ravinas do Lajedo de Soledade. [imagem: Wandeclayt M./@ceuprofundo].

Um afloramento calcário de 90 milhões de anos no sertão do Rio Grande do Norte é uma testemunha de quando o sertão já foi mar e abriga um vasto acervo de pinturas rupestres e ainda é coberto por um deslumbrante céu estrelado! Um verdadeiro tesouro arqueológico, paisagístico e astronômico

Este é o Lajedo de Soledade, na cidade de Apodi, a 350 km de Natal e pouco menos de 100 km de Mossoró!

O Lajedo de Soledade é um destino onde história, geologia, astronomia e preservação dão as mãos ao turismo sustentável. E foi este o sítio que escolhemos para observar o pico da chuva de meteoros Geminídeos de 2024.

Um céu estrelado, com uma faixxa clara cortando a imagem diagonalmente. A faixa é a nossa galáxia, a Via Láctea. Um pequeno traço aparece num canto superior, formado pela passagem de um meteoro. Na parte baixo, uma formação rochosa iluminada pela Lua e algumas árvores delgadas.
Vista ao sul, de dentro do Lajedo de Soledade, com a Via Láctea cruzando o céu na diagonal da imagem. As estrelas Alfa (Canopus) e Beta (Miaplacidus) da constelação da Carina são as mais brilhantes na imagem. Um meteoro foi capturado na borda superior direita da imagem. [imagem: Wandeclayt M.]

Todos os anos, durante o mês de dezembro, a Terra atravessa uma região rica em detritos do asteroide 3200 Phaeton. São esses detritos que, ao entrar em nossa atmosfera, formam os meteoros da chuva Geminídeos. Nas madrugadas dos dias 13 e 14, cruzamos a região de maior densidade desses detritos, o que corresponde ao pico de atividade dos meteoros, numa taxa que pode atingir 150 meteoros por hora em condições perfeitas.

No entanto, para a chuva de 2024, as condições estiveram longe da perfeição: às vésperas da Lua Cheia, o brilho lunar ofusca a maior parte dos meteoros e durante toda a noite de observação pudemos contar aproximadamente 40 meteoros.

Mas com ou sem meteoros, nossa escolha de sítio foi garantia de uma experiência rica e satisfatória à noite e até após o nascer do Sol.

Um gráfico com as órbitas dos planetas Mercurio, Venus, Terra e Marte. Além dos planetas, uma órbita bastante alongada, que chega a penetrar a órbita de Mercúrio e que se afasta além da órbita de Marte mara a trajetória do asteroide 3200 Phaeton, o corpo responsável pela chuva de meteoros Geminídeos.
Posição da Terra na madrugada de 13/12/2024, cruzando a órbita do asteroide 3200 Phaeton. Órbita simulada no sistema JPL Horizons.

A chuva de meteoros pode não ter sido a edição mais impressionante dos Geminídeos, mas o sítio do Lajedo de Soledade não deixou nada a desejar! Passada a noite de observação, pudemos nos concentrar na beleza das formações geológicas e nos muitos painéis de pinturas rupestres que se concentram na área preservada do sítio!

Visitando o Sítio Arqueológico!

As visitas ao sítio arqueológico podem ser feitas de terça a domingo, com acompanhamento de guias da Fundação Amigos do Lajedo de Soledade (FALS). Os detalhes sobre o acesso ao museu e a contratação de guias podem ser consultados no site https://lajedodesoledade.org.br/

Fachada do Museu Arqueológico do Lajedo de Soledade.
Museu Arqueológico do Lajedo de Soledade [imagem: Wandeclayt M./@ceuprofundo]

O acesso aos painéis é fácil e não requer nenhuma trilha longa. Os guias da FALS conhecem muito bem cada um dos painéis localizados no labirinto de ravinas esculpidas pela erosão no Lajedo, além de possuírem um vasto repertório sobre a geologia e a história da região. O circuito pode ser feito em pouco mais de uma hora, mas não descuide da hidratação e do filtro solar. O passeio pode ser curto, mas o Sol do sertão potiguar faz essa caminhada ser exaustiva.

Um dos mais interessantes painéis na Ravina da Dodora exibe inscrições que nos remetem ao céu estrelado e a objetos astronômicos. Inevitável pensar que a Astronomia possa ter sido uma inspiração para essas pinturas quando vemos o céu sobre a Ravina, como na imagem abaixo. [imagem: Wandeclayt M./@ceuprofundo]
A Ravina da Dodora emoldura o céu estrelado sobre o Lajedo de Soledade. Na imagem, a estrela mais brilhante é Sírius, na constelação do Cão Maior. A constelação de Órion, com as Três Marias e com a grande nebulosa M42, aparece acima da Carnaúba, uma palmeira endêmica do semi-árido nordestino. [imagem: Wandeclayt M./@ceuprofundo]

Além de painéis pintados com motivos geométricos (e possivelmente astronômicos) há representações da fauna (aves e lagartos são facilmente identificáveis) como na Ravina das Araras e painéis com gravações em baixo relevo.

Pinturas rupestres na Ravina das Araras (Lajedo de Soledade). [Imagem: Wandeclayt M./@ceuprofundo]
Gravações em baixo relevo (tradição itacoatiara) no Lajedo de Soledade. [imagem: Wandeclayt M./@ceuprofundo]

Um Panorama de Encher os Olhos

Mas não deixe o deslumbramento com as pinturas rupestres impedir você de se deleitar com a visão mais ampla de todo o sítio. Os intrincados detalhes esculpidos na rocha calcária pelo tempo e a resiliente vegetação da caatinga, o mais brasileiro e nordestino dos biomas, compõem um espetáculo que também precisa ser desfrutado.

Vista panorâmica do Lajedo de Soledade. As rochas são recortadas em complexos padrões e á um leito seco de rio no centro da imagem.
Vista panorâmica aérea do Lajedo de Soledade [imagem: Wandeclayt M./@ceuprofundo]
Wandeclayt do Projeto Céu Profundo, de barba e óculos, vestindo camiseta preta e chapéu. Henrique, guia do Lajedo, vestindo camiseta branca. Os dois homens olham na direção da câmera e se encontram sobre as rochas do Lajedo.
Fim de visita com o guia Henrique, da Fundação Amigos do Lajedo de Soledade. Experiência arqueológica e geológica, após a noite astronômica, fechando com chave de ouro nossa passagem pelo Sertão Potiguar. [imagem: Wandeclayt M./@ceuprofundo]
Vista aérea do Lajedo, com uma cor predominantemente acinzentada e cortado por linhas aproximadamente retas, correspondendo a marcas de erosão na formação.
Vista aérea do afloramento calcário do Lajedo de Soledade. [imagem: Wandeclayt M./@ceuprofundo]

Este foi sem dúvida um dos sítios mais fascinantes que já visitamos. Uma paisagem que nos leva numa viagem no tempo e no espaço. Um local de clima severo, onde o calor do Sol castiga, mas o calor humano dos guias e da população nos fazem querer retornar correndo para os encantos de Soledade.

Ministramos uma breve instrução de reconhecimento de céu nas ravinas do Lajedo de Soledade. Entre os participantes, a ilustre presença de Adailton Targino (segundo, da direita para a esquerda), um dos guias pioneiros da FALS.

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Calendário Astronômico – Dezembro 2024

Calendário Astronômico

Efemérides foram computadas usando as bibliotecas astropy e astroquery em Python e o software Occult v4.

Data e Hora    | Evento

2024/12/01 03h | LUA NOVA
2024/12/01 04h | Antares 0.0°N da Lua (Ocultação)*
2024/12/01 22h | Mercúrio 4.9°N da Lua
2024/12/02 19h | Lua mais ao sul (-28.5°)
2024/12/04 20h | Vênus 2.2°N da Lua
2024/12/05 01h | Plutão 1.2°N da Lua
2024/12/05 23h | Mercúrio em conjunção inferior
2024/12/07 11h | Vênus 0.9°N de Plutão
2024/12/07 17h | Júpiter em oposição
2024/12/07 17h | Marte estacionário
2024/12/08 05h | Saturno 0.3°S da Lua (Ocultação)*
2024/12/08 07h | Netuno estacionário
2024/12/08 12h | QUARTO CRESCENTE
2024/12/09 05h | Netuno 0.7°S da Lua (Ocultação)*
2024/12/12 10h | Lua no perigeu
2024/12/13 04h | Urano 4.1°S da Lua
2024/12/13~14  | Pico dos Geminídeos
2024/12/14 15h | Júpiter 5.4°S da Lua
2024/12/15 06h | LUA CHEIA
2024/12/15 17h | Lua mais ao norte (28.4°)
2024/12/15 19h | Mercúrio estacionário
2024/12/17 09h | Pólux 2.0°N da Lua
2024/12/18 06h | Marte 0.8°S da Lua (Ocultação)*
2024/12/20 05h | Régulo 2.2°S da Lua
2024/12/21 06h | Solstício
2024/12/22 19h | QUARTO MINGUANTE
2024/12/24 04h | Lua no apogeu
2024/12/24 17h | Spica 0.2°S da Lua (Ocultação)*
2024/12/25 06h | Mercúrio na máxima elongação a oeste (22°)
2024/12/28 12h | Antares 0.1°N da Lua (Ocultação)**
2024/12/30 01h | Lua mais ao sul (-28.4°)
2024/12/30 19h | LUA NOVA

* Não visível do Brasil.
** Visível de parte do Brasil. Consulte mapa abaixo.

Os Céu em Dezembro

O cair das noites de dezembro vem ornado com três planetas brilhantes. De oeste para leste, você encontrará em sequência Vênus, Saturno e Júpiter. Um pouco mais tarde, Marte surge seguindo o trio. Note na imagem abaixo a linha alaranjada marcando a eclíptica, o plano da órbita terrestre em torno do Sol. Como as órbitas dos maiores corpos do Sistema Solar estão todas aproximadamente neste mesmo plano, é ao longo dessa linha que você sempre encontrará os planetas. Perceba como Vênus, Saturno e Júpiter estão alinhados seguindo a eclíptica. Ao nascer, um pouco mais tarde, Marte também mantém esse alinhamento.

Vênus, Saturno e Júpiter no céu do início da noite em dezembro. A simulação corresponde ao céu da cidade de Natal (RN) em primeiro de dezembro de 2024. [simulação no Stellarium por Wandeclayt M./Projeto Céu Profundo].

O céu de verão traz também uma das chuvas de meteoros mais ativas do ano, os Geminídeos, podendo atingir um pico de mais de 100 meteoros por hora entre os dias 13 e 14 de dezembro. No entanto, em 2024, a Lua cheia reduz drasticamente o número de meteoros observáveis.

Para os observadores de objetos de céu profundo, é a temporada de observar a deslumbrante M42 (a Grande Nebulosa de Órion), M31 (a Galáxia de Andrômeda) e de desfrutar a olho nu da visão dos aglomerados Plêiades e Híades, na constelação do Touro.

A região das constelações de Órion e Touro, povoada de objetos de céu profundo. Simulação: Stellarium.

Os planetas em Dezembro/2024

Clique na imagem para ampliar.

Configurações do Sistema Solar em dezembro/2024

Os diagramas abaixo mostram a configuração dos planetas interiores e exteriores do Sistema Solar ao longo do mês de dezembro, em coordenadas heliocêntricas.

Satélites de Júpiter

Configuração dos satélites galileanos em dezembro/2024 [https://pds-rings.seti.org/tools/tracker3_jup.shtml]

Anéis de Saturno

Configuração dos anéis de Saturno em 15 de novembro. [https://pds-rings.seti.org/tools/viewer3_sat.shtml]

Pesquisadores do INPE Lançam Livro Gratuito de Astronomia e Astrofísica

Coleção Introdução à Astronomia e Astrofísica (2024)

Desde 1998, a Divisão de Astrofísica do Instituto Nacional de Atividades Espaciais (INPE) organiza o Curso de Introdução à Astronomia e Astrofísica (CIAA), voltado para professores do ensino fundamental e médio e para estudantes de graduação em Ciências Exatas.

Em suas 25 edições, o CIAA se consolidou como um importante curso de formação e atualização para professores e futuros cientistas em um ambiente imersivo, em contato com pesquisadores envolvidos em alguns dos mais importantes projetos de pesquisa e desenvolvimento em Astronomia do Brasil.

Com um conteúdo atual e abrangente, o curso desperta grande interesse por suas vagas a cada edição. Suas notas de aula são uma valiosa referência e vê-las lançadas em formato de livro, com organização do Dr. André Milone (Divisão de Astrofísica/INPE), é motivo de alegria para os interessados no tema que carecem de literatura em português.

Os três volumes da coleção Introdução à Astronomia e Astrofísica lançados nesta quinta-feira (31/10) cobrem todo o programa do CIAA e estão disponíveis gratuitamente em formato PDF. Baixe nos links abaixo:

  • Volume 1 – Astronomia no dia a dia, Astrofísica Observacional, O Sistema Solar, Habitabilidade Cósmica e a Possibilidade de Vida em Outros Locais do Universo.
  • Volume 2 – O Sol, Formação de Estrelas, A Vida das Estrelas, Estágios Finais de Estrelas
  • Volume 3 – Galáxias, Cosmologia, Astrofísica de Ondas Gravitacionais.

Calendário Astronômico – O Céu de Abril/2024

Um mês repleto de encontros planetários visíveis de todo o Brasil, com um eclipse solar visível apenas no Hemisfério Norte e com o promissor cometa 12P/Pons-Brooks chegando ao periélio. Prepare a agenda para não perder nenhum dos espetáculos em cartaz no céu durante o mês de abril!

Calendário Astronômico

As efemérides foram computadas usando as bibliotecas astropy e astroquery em scripts Python e o software Occult v4.

    Data               Evento

    2024-04-01 05h - Lua no ponto mais ao sul (-28.6°)
    2024-04-01 19h - Mercúrio estacionário
    2024-04-02 00h - QUARTO MINGUANTE
    2024-04-03 09h - Plutão 2.1°N da Lua
    2024-04-03 10h - Vênus 0.3°S de Netuno
    2024-04-06 03h - Marte 1.7°N da Lua
    2024-04-06 07h - Saturno 1.0°N da Lua
    2024-04-07 05h - Netuno 0.3°N da Lua
    2024-04-07 13h - Vênus 0.4°S da Lua
    2024-04-07 14h - Lua no perigeu
    2024-04-08 15h - LUA NOVA
    2024-04-08     - Eclipse Solar - Não visível do Brasil.
    2024-04-08 23h - Mercúrio 1.9°N da Lua
    2024-04-10 16h - Júpiter 3.7°S da Lua
    2024-04-10 17h - Marte 0.4°N de Saturno
    2024-04-10 19h - Urano 3.4°S da Lua
    2024-04-11 19h - Mercúrio em conjunção inferior.
    2024-04-13 19h - Lua no ponto mais ao norte (28.6°)
    2024-04-15 11h - Pollux 1.5°N da Lua
    2024-04-15 16h - QUARTO CRESCENTE
    2024-04-18 11h - Regulus 3.3°S da Lua
    2024-04-19 07h - Mercúrio 1.7°N de Vênus
    2024-04-19 23h - Lua no apogeu
    2024-04-20 23h - Júpiter 0.5°S de Urano
    2024-04-21 00h - Cometa 12P/Pons-Brooks no periélio.
    2024-04-23 00h - Spica 1.3°S da Lua
    2024-04-23 20h - LUA CHEIA
    2024-04-24 05h - Mercúrio estacionário
    2024-04-26 17h - Antares 0.3°S da Lua
    2024-04-28 11h - Lua no ponto mais ao sul (-28.5°)
    2024-04-29 01h - Marte 0.1°N de Netuno
    2024-04-30 15h - Plutão 2.0°N da Lua


ABRIL NA HISTÓRIA

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7 - Missões Espaciais: Mars Odyssey foi lançada em 7 de abril de 2001.

10 - Descobertas/Eventos: Em 2019, a primeira imagem de um buraco negro foi publicada pelo Event Horizon Telescope.

10 - Missões Espaciais: BepiColombo realizou um sobrevoo da Terra em 10 de abril de 2020 aproveitando a gravidade terrestre para ganhar energia em sua jornada até Mercúrio, com entrada em órbita programada para 2025.

11 - Missões Espaciais: Apollo 13 foi lançada em 11 de abril de 1970.

12 - Astrônomos e Físicos: Charles Messier morre em Paris, em 12 de abril de 1730, aos 86 anos. Seu catálogo de objetos nebulosos é uma referência para astrônomos amadores.

12 - Missões Espaciais: STS-1 Columbia, o primeiro voo do Programa de Ônibus Espaciais da NASA, lançado em 12 de abril de 1981.
 
12 - Missões Espaciais: Yuri Gagarin - Vostok 1, em 12 de abril de 1961, tornou Yuri Gagarin o primeiro ser humano a viajar para o espaço.

14 - Astrônomos e Físicos: Christiaan Huygens nasceu em 14 de abril de 1629.

17 - Descobertas/Eventos: Em 2014, astrônomos anunciaram a descoberta do exoplaneta Kepler-186f. Primeiro planeta de dimensões comparadas à Terra encontrado na zona habitável de uma estrela.

23 - Astrônomos e Físicos: Max Planck nasceu em 23 de abril de 1858.

24 - Missões Espaciais: Telescópio Espacial Hubble foi lançado em 24 de abril de 1990.

25 - Astrônomos e Físicos: Guglielmo Marconi nasceu em 25 de abril de 1874.
Apesar do padre brasileiro Landell de Moura ter realizado com sucesso experimentos com telecomunicações via ondas de rádio nos primeiro anos da década de 1890, Marconi é considerado mundialmente como o pioneiro na radiotelegrafia desenvolvendo equipamentos que dariam origem a comunicação por rádio moderna.

O Cometa Pons-Brooks sobe ao palco!!

Órbita do cometa 12P/Pons-Brooks (em branco). Visualização gerada no visualizador de órbitas do sistema JPL-Horizons.

A órbita da Terra e a dos demais planetas está contida aproximadamente no mesmo plano, a eclíptica. Assim, é sempre nas proximidades dessa faixa do céu definida pela órbita terrestre que encontraremos todos os planetas e muitos dos outros objetos do Sistema Solar. É comum no entanto encontrarmos cometas com órbitas muito inclinadas em relação ao plano da eclíptica. É o caso do cometa 12P/Pons-Brooks que tem sua órbita com inclinação de 74º em relação ao plano da órbita terrestre e quase que inteiramente ao norte da eclíptica. As consequências dessa geometria e do fato de vivermos em um planeta esférico é que nos meses que antecedem o periélio, a máxima aproximação com o Sol, do 12P/Pons-Brooks, a observação é bem desfavorável para observadores no hemisfério sul.

A notícia boa é que ao atingir o periélio o 12P já estará numa posição menos desfavorável para observação abaixo do equador. Após o periélio o cometa segue em direção ao hemisfério sul celeste, permitindo que sejamos os últimos a observá-lo enquanto se afasta do Sol.

E vamos poder vê-lo a olho nu?

Certamente vai ser possível vê-lo com binóculos. A projeção de magnitude 4 ao redor do periélio coloca seu brilho bem dentro dos limites do que podemos observar a olho nu, mas cometas são objetos de brilho difuso e o 12P aparecerá próximo ao horizonte logo após o pôr do Sol nas semanas que antecedem e sucedem o periélio. O céu ainda não completamente escuro e a pequena elevação do cometa sobre o horizonte adicionam uma dificuldade extra à observação. É possível sim vê-lo a olho nu, mas busque locais com horizonte desobstruído e acompanhe nossas redes sociais para dicas de observação assim que o cometa estiver mais evidentes em nossas latitudes.

Os dados disponibilizados pelos membros da rede de observação de cometas COBS mostra a evolução do brilho do cometa 12P/Pons-Brooks e projeta magnitude 4 no período próximo ao periélio. [ fonte: https://cobs.si/home/]

Os Planetas.

Aproveite para observar o Júpiter ao anoitecer. Abril é o mês da despedida do Gigante Gasoso do céu noturno. E pelos próximos meses teremos os planetas mais brilhantes visíveis apenas durante a madrugada. Então prepare-se para cair cedo da cama se quiser acompanhar as sempre belas conjunções entre a Lua e os planetas.

Céu de São José dos Campos, às 19h do dia 7 de abril de 2024. O Norte está no topo e o Leste à esquerda. [diagrama: @ceuprofundo, gerado no Stellarium]

No diagrama abaixo vemos a evolução dos planetas e do cometa Pons-Brooks no céu durante o mês de abril. Clique na imagem para ampliar.

Conjunções

Ao amanhecer do dia 6 de abril, a Lua com 8% de sua face visível iluminada vai compor um belo quadro ao lado de Saturno e Marte. Mais baixo no horizonte, Vênus completa a composição. É uma bela oportunidade para emoldurar três planetas e a Lua incluindo a paisagem.

Ao amanhecer do dia 6 de abril, a Lua, com 8% de sua face visível iluminada ao lado de Saturno. [imagem: gráfico gerado no Stellarium. Wandeclayt M.]

Na madrugada de 10 de abril uma oportunidade rara de ver dois planetas através da ócular do telescópio. Se você é capaz de ver a lua inteira na ocular, poderá ver simultaneamente Marte e Saturno no mesmo campo. Na imagem abaixo simulamos no Stellarium a visão com um telescópio de 200 mm de abertura, f/6 com ocular de 26mm.

Marte e Saturno pela ocular do telescópio. Simulação no software Stellarium [ Wandeclayt M./Céu Profundo]

No dia 29 de abril o encontro é entre Marte e Netuno, com os planetas ainda mais próximos no campo da ocular. É uma boa oportunidade de identificar Netuno no céu.

Marte e Netuno no campo da ocular, em 29 de abril. Simulação no software Stellarium. [Wandeclayt M./Céu Profundo]

Júpiter e Urano também se cruzam no dia 20 de abril, mas com os planetas muito próximos do horizonte ao pôr do Sol.

Satélites de Júpiter

Configuração dos satélites galileanos de Júpiter durante o mês de abril. O diâmetro de Júpiter é representado pela faixa central. As curvas representam a posição aparente dos satélites em relação ao disco do planeta. Gráfico gerado em https://pds-rings.seti.org/tools/tracker3_jup.shtml

Calendário Astronômico – O Céu de Março 2024

Saturno se despede do Céu Noturno!

Na dança dos planetas, Júpiter reina soberano e solitário nas noites de março enquanto Saturno, após a conjunção em 28 de fevereiro, se junta a Vênus e Marte nas madrugadas.

Março também é o mês do equinócio vernal, marcando o início do outono no hemisfério sul e da primavera no hemisfério norte. O outono inicia às 00:06 (Horário de Brasília) do dia 20 de março. Nos equinócios, a noite e o dia claro tem a mesma duração e ambos os hemisférios estão igualmente iluminados. Os equinócios de outono e da primavera, são também os únicos dias do ano em que o Sol nasce e se põe exatamente nos pontos cardeais leste e oeste, respectivamente. E um experimento interessante a ser feito é marcar exatamente os pontos do nascente e do poente nesses dias, para comparar com o nascente e o poente nos dias seguintes até os limites dos solstícios de inverno e de verão, quando o Sol atinge posições extremas ao norte e ao sul.

Ao anoitecer, a constelação de Órion está alta no céu, tornando a Grande Nebulosa de Órion (M42) um alvo ideal para pequenos telescópios, mesmo em regiões com alguma poluição luminosa. Os aglomerados estelares Plêiades e Híades, em Touro seguem também visíveis até o fim do mês, nas primeiras horas da noite.

Céu de São José dos Campos, às 20h do dia 15 de março de 2024. O Norte está no topo e o Leste à esquerda. [diagrama: @ceuprofundo, gerado no Stellarium]

A constelação do Escorpião, que nasce por volta da meia-noite no início de março, é o palco de uma bela ocultação, visível de grande parte do Brasil na madrugada do domingo 03:
A Lua ocultará Antares, o coração do Escorpião, em um evento que privilegiará observadores em cidades nas regiões Norte e Centro-Oeste. Veja detalhes mais abaixo.

As efemérides foram computadas usando as bibliotecas astropy e astroquery em scripts Python e o software Occult v4. Boas observações!

Data                     Evento

2024-03-03 5h       - Antares 0.4° S da Lua (ocultação visível do Brasil)
2024-03-03 12h      - Lua minguante
2024-03-04 22h      - Lua mais ao sul (-28.5°)
2024-03-06 23h      - Plutão 2.1° N da Lua
2024-03-08 3h       - Marte 3.2° N da Lua
2024-03-08 12h      - Mercúrio 0.4° N de Netuno
2024-03-08 15h      - Vênus 3.0° N da Lua
2024-03-09 15h      - Saturno 1.3° N da Lua
2024-03-10 4h       - Lua no Perigeu (356893.64 km)
2024-03-10 5h       - Lua nova
2024-03-10 16h      - Netuno 0.4° N da Lua
2024-03-11 00h      - Mercúrio 0.9° N da Lua
2024-03-13 20h      - Júpiter 3.3° S da Lua
2024-03-14 7h       - Urano 3.2° S da Lua
2024-03-17 1h       - Lua crescente
2024-03-17 9h       - Netuno em conjunção.
2024-03-17 11h      - Lua mais ao norte (28.5°)
2024-03-19 3h       - Pollux 1.5° N da Lua
2024-03-20 00h      - Equinócio de Outono (Hemisfério Sul)
2024-03-21 20h      - Vênus 0.3° N de Saturno 
2024-03-22 5h       - Regulus 3.3° S da Lua
2024-03-23 12h      - Lua no Apogeu (406306.97 km)
2024-03-24 17h      - Mercúrio em máxima elongação leste(19°)
2024-03-25 3h       - Lua cheia (Eclipse)
2024-03-26 18h      - Spica 1.3° S da Lua
2024-03-30 12h      - Antares 0.3° S da


MARÇO NA HISTÓRIA

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MARÇO
07 - (1792) Nascimento de John Herschel, astrônomo que originou o uso do sistema juliano na astronomia. Ele nomeou sete luas de Saturno e quatro luas de Urano. 
09 - (1934) Nascimento de Yuri Gagarin (URSS), primeiro humano a viajar ao espaço.
11 - (1811) Nascimento de Urbain Le Verrier, astrônomo responsável pela previsão da localização de um oitavo planeta solar, agora chamado Netuno.
13 - (1781) Descoberta de Urano pelo astrônomo William Herschel. 
13 - (1855) Nascimento de Percival Lowell, iniciou as pesquisas que levaram à descoberta do planeta Plutão. 
16 - (1750) Nascimento de Caroline Herschel, astrônoma, primeira mulher a receber pagamentos para realizar pesquisas astronômicas.
18 - (1965) Alexei Leonov (URSS) se torna o primeiro ser humano a realizar um caminhada espacial (Atividade Extraveicular)
19 - (2023) Lançamento do foguete HANBIT-TLV da empresa coreana INNOSPACE a partir do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA).
27 - (1969) Lançamento da sonda Mariner 7, para Marte.

2024-03-03 Ocultação de Antares pela Lua

Ocultação de Antares pela Lua na madrugada de 2024-03-03 [mapa: Carolina da Silveira, gerado no Occult4]

O mapa acima mostra a região de visibilidade da ocultação da estrela Antares (alfa do Escorpião) na madrugada do dia 3 de março. Na região compreendida entre as linhas brancas, o evento acontece com céu escuro. Entre as linhas azuis, evento acontece no crepúsculo matutino e amanhecer. Entre as linhas vermelhas tracejadas o evento acontece com céu claro. Nas regiões vizinha a área de visibilidade da ocultação, a conjunção entre Lua e Antares também é um espetáculo digno de ser observado! Então, de qualquer lugar do Brasil, não perca a oportunidade de registrar este evento antes do nascer do Sol.

Satélites de Júpiter

Configuração dos satélites galileanos de Júpiter durante o mês de março. O diâmetro de Júpiter é representado pela faixa central. As curvas representam a posição aparente dos satélites em relação ao disco do planeta.

Não compre! Adote uma estrela!

Assim como o Mickey Mouse da animação de 1928 que acaba de entrar em domínio público, catálogos astronômicos podem ser usados livremente sem que você precise pagar por eles.

Há várias maneiras de se identificar uma mesma estrela no céu. Algumas estrelas possuem nomes próprios, como Sírius, a estrela mais brilhante na constelação do Cão Maior. Ou como Betelgeuse e Rigel em Órion. Ou ainda Antares, a gigante vermelha que marca o coração da constelação do Escorpião.

Muitos desses nomes tem origem na Grécia antiga e trilharam um longo caminho até os nossos dias através de obras como o Almajesto, escrito no séc. II por Claudio Ptolomeu, que resgatava o trabalho de Hiparco (190 a.C – 120 a.C) que elaborou o primeiro catálogo estelar e introduziu o conceito de “grandezas” para quantificar o brilho das estrelas, atribuindo seis grandezas às estrelas então visíveis a olho nu, indo da primeira grandeza para as mais brilhantes até a sexta grandeza para as estrelas no limite da visibilidade. Esta classificação em grandezas foi preservada no sistema moderno de magnitudes de objetos astronômicos.

A ponte entre Claudio Ptolomeu e o Renascimento europeu coube principalmente a astrônomos árabes, que deixaram um rico legado de nomenclatura estelar, seja por nomes cunhados originalmente pelos povos do deserto ou por transcrições de nomes gregos. O Livros das Estrelas Fixas (964 d.C) do astrônomo persa Abd al-Rahman al-Sufi, descreve as 48 constelações listadas por Ptolomeu e inclui tabelas com a localização e magnitude das estrelas e listas com seus nomes árabes. Al Sufi é uma das grandes fontes de nomes estelares que se perpetuaram e foi uma grande influência para a Astronomia europeia.

A constelação de Escorpião representada no Livro das Estrelas Fixas, de Al Sufi.

Nomes latinos como Spica (a Espiga) em Virgem, ou Bellatrix (a Guerreira) em Órion misturam-se a nomes de origem árabe que você certamente conhece: Betelgeuse (que vem de Ibt al Jauzah, A axila do que está no meio) em Órion, Aldebaran ( Al Dabaran, Aquela que segue. No caso, segue as Plêiades) em Touro e Denébola (Al Dhanab al Asad, a cauda do Leão) em Leão.

Mas nem todas as estrelas visíveis possuem nomes próprios. Johann Bayer (1572-1625) publicou em 1603 seu atlas estelar Uranometria (Uranometria Omnium Asterismorum) introduzindo um novo sistema de nomenclatura: a partir da estrela mais brilhante da constelação, atribuem-se em ordem alfabética as letras do alfabeto grego, seguido do genitivo em latim da constelação. Assim, estrela mais brilhante na constelação do Touro (Aldebaran) é a alfa Tauri, a segunda mais brilhante é a beta Tauri e assim sucessivamente. Após a última letra do alfabeto grego (ômega), Bayer utilizou as letras do alfabeto latino.

O Uranometria de Bayer certamente simplificou a maneira como identificamos estrelas, mas ainda assim, é insuficiente quando mergulhamos em direção a estrelas menos luminosas. A sequência necessária ao trabalho de Bayer veio com o catálogo criado por John Flamsteed (1646-1719) que ordenava as estrelas não pelo seu brilho aparente mas por suas coordenadas, listando-as em ordem crescente de ascenção reta em seu Stellarum Inerrantium Catalogus Britannicus (Catálogo Britânico das Estrelas Fixas) incluído no volume 3 do Historiae coelestis Britannicae, publicado postumamente em 1725.

A esta altura, já temos três maneiras de identificar as estrelas mais brilhantes: por seu nome próprio e pelas designações de Bayer e de Flamsteed. Assim, a estrela número 58 na constelação de Órion (58 Orionis) do catálogo de Flamsteed é também a alfa Orionis na designação de Bayer, além de ter seu nome próprio: Betelgeuse.

Região das Constelações de Órion e Touro no Atlas de Flamsteed. Constelações que não se popularizam como “O pequeno telescópio de Herschel” e “A Harpa de George” aparecem representadas nessa edição francesa do Atlas de 1776 [Acervo online da Universiteit Utrecht].

Das 2936 estrelas listadas na versão final do catálogo de Flamsteed, no séc 18, até os catálogos contemporâneos o salto no número de objetos catalogados não foi nada singelo. No séc. 19, o atlas Uranographia (1801) de Johann Elert Bode (1747-1826) incluía novas estrelas do hemisfério sul celeste e representava novas constelações imaginadas por Hevelius e Lacalle, chegando a 17240 objetos. O Uranometria Argentina(1879), de Benjamin Gould, elevava o número de objetos a 32448.

No séc. 20, novos grandes catálogos surgiram, como os populares Henry Draper Catalog (HD), Bright Star Catalog (Harvard Revised Photometry, HR) e Smithsonian Astrophysical Observatory Catalog (SAO), todos usando designações alfanuméricas. Usando esses catálogos, Betelgeuse pode ser chamada de HD39801, HR 2061 ou SAO 113271.

Consultando dados do catálogo Gaia DR1 em uma região do aglomerado globular de estrelas M4, imageado pelo Telescópio Espacial Hubble. Tanto as imagens do Hubble quanto os dados do Gaia são públicos e amplamente utilizados por cientistas profissionais e cidadãos.

Saltando para a atualidade, na era dos mapeamentos realizados por satélites, chegamos catálogos 1 milhão de vezes maiores que o de Bayer. Em sua versão publicada em 2022, o catálogo gerado pelo satélite Gaia, da Agência Espacial Europeia (ESA), lista 1,5 bilhão de fontes com magnitude, posição, paralaxe e movimento próprio.

O valor de um catálogo mora na sua utilidade e na ampla adoção pela comunidade. Ao listar um objeto em uma publicação científica é preciso que aquele objeto seja inequivocamente identificado por qualquer pessoa interessada, cientista profissional ou não, independente de sua nacionalidade ou cultura. E isto é possível graças ao uso de catálogos que são de conhecimento de toda a comunidade de observação e pesquisa em astronomia, incluindo a observação amadora. Se recebemos uma previsão de que a estrela HD39801 será ocultada por um asteroide, prontamente sabemos suas coordenadas e magnitude e podemos identificar que a estrela é a nossa familiar Betelgeuse.

Isso significa que um catálogo particular, sem qualquer uso pela comunidade não tem valor? A resposta curta é sim. Mas há quem consiga lucrar com isso, aproveitando-se da ingenuidade do público menos familiarizado com o tema. Há quem cobre para batizar uma estrela com seu nome, oferecendo vistosos certificados de inclusão num catálogo que será utilizado por um total de zero pessoas. Aparentemente o encontro entre oportunismo e ingenuidade é o motor desse mercado. Falamos com tranquilidade: vender estrelas é golpe.

O fato é que a compra do nome de uma estrela não tem qualquer respaldo da entidade mundial de regulação da nomenclatura astronômica, a União Astronômica Internacional (IAU) e mais ninguém além de você e de quem ganhou o seu dinheiro vai fazer a mínima ideia de que você deu seu nome ao distante astro.

Catálogos oficiais, utilizados pela comunidade astronômica, não comercializam nomes de estrelas ou de outros objetos astronômicos. Fuja desse golpe.

E como a IAU não comercializa nomes de objetos astronômicos, talvez faça mais sentido adotar livre e gratuitamente a estrela de sua preferência e quem sabe até presentear seus entes queridos com sua estrela favorita sem precisar pagar para qualquer empresa charlatã. E se você não possui um telescópio, pode explorar o céu e escolher sua estrela, ou talvez uma nebulosa ou uma galáxia inteira, em um atlas celeste fotográfico como o ESASky. Provavelmente você não vai poder mandar entregar esse presente, mas não temos dúvidas de que dedicar a alguém um belo objeto astronômico que você pacientemente encontrou após explorar uma região do céu é um presente único e tocante. Mas o mais importante é: não compre! Adote!

Referências

Allen, Richard Hinckley. Star Names and Their Meanings (1899). https://archive.org/details/starnamesandthe00allegoog/

Abd al-Rahman al-Sufi. Suwar al-kawākib (O Livro das Estrelas Fixas)(964). https://www.loc.gov/item/2008401028

Bayer, Johann. Uranometria Omnium Asterismorum (1603). https://archive.org/details/uranometria-omnium-asterismorum-continens-schemata/

Flamsteed, John. Atlas céleste de Flamstéed (1776). http://objects.library.uu.nl/reader/resolver.php?obj=000527025&type=2

Flamsteed, John. Historiae coelestis Britannicae (1725). https://archive.org/details/bub_gb_XGkA07NtjhAC/

União Astronômica Internacional (IAU). Star Names. https://www.iau.org/public/themes/naming_stars/