Nancy Grace Roman – Um novo super telescópio no espaço.

O time de grandes telescópios da NASA ganha um novo e poderoso reforço com o lançamento do telescópio Roman. Um telescópio de 2,4 m de abertura, com a missão de mapear extensas áreas do céu no infravermelho próximo!

renderização 3D mostrando o telescópio Roman contra o céu escuro e estrelado, simulando sua posição em órbita.
Simulação do Telescópio Espacial Nancy Grace Roman em órbita, no ponto lagrangeano L2. (Créditos: NASA/SVS)

O Telescópio Espacial Nancy Grace Roman tem um espelho primário com as mesmas dimensões do utilizado pelo veterano Telescópio Espacial Hubbble, mas com detectores sensíveis em uma faixa mais extensa do infravermelho e com um campo significativamente mais extenso.

Mas nesta quadra da história, em que telescópios terrestres com espelhos entre 8 m e 10 m estão em plena operação e que telescópios gigantes de 25 m e 39 m estão sendo construídos, todos dotados de sistemas que neutralizam os efeitos da turbulência atmosférica, faz sentido colocar no espaço um telescópio de meros 2,4 m de diâmetro?

Em construção no Chile, com participação brasileira, o Telescópio Gigante Magalhães (Giant Magellan Telescope – GMT) integrará 7 espelhos de 8,4 m para compor seu espelho primário de 25 m. (Créditos: Giant Magellan Telescope – GMTO Corporation.)

Faz todo sentido se o objetivo é observar em regiões do espectro em que a atmosfera terrestre é opaca!

Felizmente a atmosfera terrestre bloqueia a radiação nas faixas do ultravioleta e dos raios x, mas além dessas faixas absolutamente nocivas à nossa saúde, a atmosfera também não é transparente para a maior parte da radiação infravermelha. E é na região do infravermelho próximo, com comprimento de onda de até 2300 nanometros, que o Telescópio Roman vasculhará o céu, produzindo dados valiosos para o estudo de alguns dos temas centrais da astronomia atual: matéria escura, energia escura e detecção de exoplanetas.

Wide Field Instrument (WFI)

O coração do Telescópio Roman é o Wide Field Instrument (WFI), uma câmera de 300 megapixels, com capacidade de imageamento no infravermelho próximo e em parte do espectro visível. A câmera é baseada em um conjunto de 18 detectores de 4096×4096 pixels, que cobrirá um campo de 0,8ºx0,4º, correspondendo a 200 vezes o campo coberto pelo canal infravermelho da câmera WFC3 do Telescópio Hubble!

A matriz de 18 sensores no plano focal (Focal Plane Array) do telescópio Nancy Gracy Roman, numa composição que totaliza 300 Megapixels. (Créditos: Detector Characterization Laboratory/Goddard Space Flight Center).

Nunca antes na história deste universo, um telescópio espacial teve uma visão tão ampla!

Lançado em 1990, mas modernizado e reparado em 4 ocasiões (a última delas durante a Service Mission 4, em 2009), o Hubble segue desempenhando um importante papel observando pequenas regiões do céu em alta resolução. Mas cobrir grandes áreas de maneira eficiente é uma tarefa que escapa de suas capacidades. A imagem abaixo compara o campo integrado do Roman com o campo do Hubble e deixa clara a extensão do panorama produzido pelo novo telescópio.

Comparaçnao entre os campos dos telescópios Nacy Grace Roman e Hubble.
Comparação entre os campo sdo telescópio Nancy Grace Roman e Hubble. Créditos: NASA/GSFC/STScI

Três Grandes Levantamentos

A missão central do Telescópio Roman tira vantagem de seu amplo campo de visão para produzir três grandes levantamentos. Um levantamento (ou survey) é grande projeto de mapeamento. Uma espécie de censo astronômico.

O primeiro deles é o Galactic Bulge Time-Domain Survey (Levantamento do Bojo Galáctico no Domínio do Tempo). Neste levantamento, durante 438 dias, uma área de 1,7º quadrados do bojo galáctico será imageada a cada 12 minutos. O objetivo é a detecção de exoplanetas, buracos negros e fenômenos transientes.

No High-Latitude Time-Domain Survey (Levantamento de Alta Latitude no Domínio do Tempo), o “Alta Latitude” se refere a um campo afastado do plano galáctico. Observando na direção do plano da Via Láctea, a visão de outras galáxias é obstruída pela poeira no meio interestelar. É olhando para regiões mais afastadas desse plano que podemos enxergar regiões mais distantes do universo. Neste levantamento, 30h serão dedicadas à observação de uma área de 18º quadrados a cada 5 dias. Ao observar repetidamente a mesma região do céu, espera-se uma massiva detecção de fenômenos transientes, especialmente de um tipo específico de estrelas cataclísmicas: as supernovas tipo Ia. A detecção desse tipo de estrela é importante para a determinação de distâncias em escala cosmológica, permitindo calibrar parâmetros relacionados à velocidade de expansão do universo. Esse é um passo importante para fornecer pistas para o entendimento da energia escura, uma espécie de pressão interna que que parece acelerar a expansão do universo. Este é um dos maiores desafios atuais da astrofísica e da cosmologia.

O High-Latitude Wide-Area Survey (Levantamento de Alta Latitude de Grande Área) cobrirá uma área correspondente a 12% do céu, combinando imageamento e espectroscopia. Estas observações contribuirão principalmente para a compreensão da formação e evolução de galáxias distantes, da distribuição da matéria escura no universo e dos processos de formação estelar.

Os dados desses três levantamentos serão públicos, o que garante que além dos objetivos científicos planejados, a comunidade astronômica poderá vasculhá-los para produzir ciência além dos objetivos iniciais, utilizando dados de alta qualidade que podem avançar outras áreas da pesquisa em astrofísica.

Ciência Cidadã

Ter dados públicos significa que fora da comunidade científica profissional, também é possível acessar e trabalhar livremente com esses dados. Assim como os dados produzidos pelo telescópio Roman, os dados dos telescópios James Webb e Hubble também são livremente acessíveis e podem inclusive ser usados de forma lúdica para a produção de imagens inéditas, utilizando ferramentas gratuitas e de código aberto.

Quer saber como acessar e trabalhar esses dados? A gente te ajuda. Confira essa postagem: https://ceuprofundo.com/2021/01/17/um-hubble-pra-chamar-de-seu/ e também essa playlist em nosso canal do youtube, onde mostramos em detalhes como você também pode ter um telescópio espacial para chamar de seu!

MOBFOG – Mostra Brasileira de Foguetes – Você Não Vai Acreditar no Desempenho desses Pequenos Foguetes

palavras-chave: foguetes, mobfog, física, ensino, astronáutica, oba.

Garrafas PET, água, ar comprimido e paixão pelo espaço! São esses os ingredientes para construção e lançamento dos foguetes do nível 3 da MOBFOG – A Mostra Brasileira de Foguetes, uma competição estudantil irmã da célebre OBA – Olimpíada Brasileira de Astronomia.

Estudantes do 6° ao 9° ano do ensino fundamental de escolas públicas e privadas de todo o Brasil participam do nível 3 da MOBFOG, competem pelas medalhas que premiam os foguetes com maior alcance. Mas muito mais valiosos que a premiação são o espírito de colaboração e a oportunidade prática de aprendizado de conceitos de física, matemática e tecnologia aeroespacial proporcionados pela empolgante atividade.

Foguete nível 3 da MOBFOG 2023 de alunas do clube Meninas na Ciência, montado na plataforma de lançamento no campo do INPE em São José dos Campos para uma bateria de ensaios de avaliação. Após a análise dos voos, modificações foram realizadas para otimizar o desempenho dos foguetes!

Em São José dos Campos (SP) , um polo de pesquisa e desenvolvimento na área aeroespacial, os professores e estudantes de escolas públicas municipais ganharam o reforço de pesquisadores e técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE/DCTA) no planejamento e análise do voo dos foguetes.

Para visualizar a dinâmica de voo dos velozes foguetes, o Laboratório de Registro de Imagens do IAE registrou os lançamentos em vídeo de alta velocidade, a 1000 quadros por segundo, permitindo analisar em detalhes a fase inicial do voo e identificar falhas de construção que prejudicam o desempenho dos foguetes.

E o que podemos aprender com os foguetes da MOBFOG?

Captura de tela do software Tracker com o lançamento de um foguete nível 3 da MOBFOG. Os gráficos à direita são do deslocamento e da velocidade do foguete em função do tempo. [créditos LRIM/IAE]

Analisando os vídeos com o software de rastreio TRACKER (um programa aberto e gratuito!), podemos acompanhar o deslocamento do foguete quadro a quadro. Plotando em um gráfico o deslocamento em função do tempo temos uma representação visual de cada fase do voo, identificando a evolução da velocidade do foguete. O Tracker está disponível para download para os os sistemas operacionais Linux, Mac OS X e Windows ou pode ser executado online em sua versão em JavaScript.

Assim que o foguete é liberado e inicia seu movimento, vemos um aumento constante da velocidade. Em seguida, o foguete deixa a base e a velocidade passa a variar com uma taxa mais elevada, mas aproximadamente constante, até que toda a água em seu interior é liberada. A partir daí o foguete segue uma trajetória balística, sujeita apenas a ação da gravidade e da resistência do ar.

A geometria do foguete tem um papel importante em seu desempenho. A posição e o formato das empenas e a posição do centro de gravidade podem torná-lo mais ou menos instável e interferir no alcance máximo. A contribuição desses fatores fica evidente na análise de vídeo.

Mas a maior surpresa pode vir dos valores de velocidade máxima e aceleração que os pequenos foguetes de garrafas PET podem atingir. Acelerações de 100g e velocidades acima de 60m/s foram registradas! Isso reforça a necessidade da estrita observação das normas de segurança: uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI), sinalização e isolamento da área de lançamento!

E se tudo for feito com segurança, os lançamentos são um excelente recurso prático para o aprendizado de conceitos físicos como velocidade, aceleração, empuxo, pressão, momento e para a interpretação de gráficos.

O que um All Star velho e Apollo 17 possuem em comum?

Julia Brazolim: Um tempo atrás um anúncio abalou uma esfera da internet pois uma marca super famosa lançou um tênis similar ao clássico All Star, mas um pouco mais… destruído e por um preço inaudível. As pessoas ficaram indignadas. Mas entrando ou não no âmago da arte desconstruída na moda, esses dias eu tive uma ideia que me custou apenas R$38. Vou dar um breve contexto.

Eu sempre gostei de comprar All Star, substituindo os pares ao longo dos anos. E certo dia, eu estava olhando pra um dos meus pares mais antigos e encontrei rasgos atrás. Como minha vontade em customizar coisas é muito alta, na hora tive a ideia de passar a fita Silver.

Julia usando o All Star após o uso da fita no tênis

Brevíssima história da Fita Silver

A Silver Tape ou a famosa fita prateada usada tão comumente em filmes de ação, seja pra prender alguém como refém ou pra prender dinamites, foi criada pela operária norte-americana Vesta Stoudt no início dos anos 40 durante a Segunda Guerra Mundial. Ela enfrentou um problemão durante o processo de embalagem das munições de armas para enviar pros soldados, já que não era prático abrir no meio da guerra e dificultava o carregamento no meio da batalha. Então, ela decidiu criar uma solução. Vesta enviou a ideia e o requerimento da produção da fita em uma carta pro então Presidente Franklin D. Roosevelt, que achou incrível e pediu pro Conselho de Produção de Guerra começar a produzir. Depois ela até ganhou um prêmio pela invenção e teve sua patente.

Foto de Vesta Stoudt. Créditos: The Chicago Sunday Tribune (24/10/1943) e Kilmerhouse

E não parou por aí. Exatamente por ser super eficiente já que a fita consegue colar em superfícies ásperas, lisas e irregulares, é feita com um tecido e também super prática pra rasgar até com a mão (ou uso dos dentes), Silver Tape passou a ser usada pela sociedade pra tampar buracos, dutos de aquecimento e tudo o que precisasse. Inclusive, numa missão espacial.

Uma fita. Uma missão. Apollo 17!

Wandeclayt: Um dos itens mais versáteis e úteis entre os aparatos levados a bordo das missões espaciais opera verdadeiros milagres em pequenos (ou não tão pequenos) reparos também aqui na Terra.

E afirmamos com tranquilidade que esse é o item mais poderoso no universo das gambiarras dos reparos emergenciais, capaz de sanar vazamentos, reparar estruturas, compor adaptações ou simplesmente remendar aquele confortável tênis velho ou aquele paralamas danificado do seu jipe lunar!

A multi talentosa fita prateada carrega em seu currículo, além do tênis All Star da Julia, a façanha de ter participado de uma adaptação que salvou a vida dos astronautas da Apollo 13 após uma explosão num tanque de oxigênio ainda a caminho da Lua e o mérito de ter garantido o cumprimento de todos os objetivos da Apollo 17, após um acidente que inviabilizaria a continuidade da exploração da bordo do jipe lunar.

Veja as fotos a seguir e olha como as fitas estão sendo usadas:

crédito: NASA (AS17-147-22526)
crédito: NASA (AS17-135-20542)
NASA (AS17-137-20979)

Julia: E é uma baita fita resistente! Como eu moro no litoral, meu receio era de que a areia tirasse a cola da fita e descolasse tudo. Mas não. Tá coladinha 🙂 Aqui um gif deu caminhando tranquilamente com o tênis:

E você? Qual foi o uso mais inusitado que você fez da fita Silver?

Esta publicação foi feita em collab com o projeto Missão Exoplaneta 🙂